MARKUS BLACKWOOD
A porta do elevador privativo se abriu revelando o hall de entrada da minha cobertura.
Eram 22:15.
O silêncio do apartamento deveria ser um bálsamo. Deveria ser o momento em que eu despia a pele do gestor que passou as últimas quatorze horas lidando com polícia, imprensa, famílias enlutadas e um assassino em série. Eu deveria entrar, servir um uísque duplo, olhar para a vista da cidade e desligar o cérebro.
Mas no meu sofá, uma pequena pessoa quebrava a simetria perfeita da decoração.
Mark.
Ele estava sentado encolhido no canto do sofá, abraçando os joelhos. A TV estava desligada.
Ele usava um pijama de flanela azul com estampa de foguetes que parecia novo demais. Provavelmente uma das compras de emergência da Sra. Higgins.
Quando ele me viu, seus olhos se iluminaram.
— Papai?
Eu ainda não estava acostumado com a sonoridade dessa palavra.
Caminhei até o sofá, mantendo as mãos nos bolsos da calça, sem saber exatamente como iniciar uma conversa.
— Mark. — Minha voz saiu rouca, cansada. — O que você está fazendo acordado? Crianças da sua idade já deveriam estar dormindo há horas.
Ele esfregou um olho com o punho fechado, lutando contra o sono.
— Eu estava esperando.
— Esperando? O quê?
— O papai chega tarde. — Ele disse, como se fosse a explicação mais lógica do mundo. — Eu queria ver se você voltava mesmo.
Senti um aperto desconfortável no estômago. Ele tinha sido deixado aqui de manhã por uma mãe que fugiu para um aeroporto. Na cabeça dele, talvez eu também não voltasse se ele fechasse os olhos.
— Eu moro aqui, Mark. Eu sempre vou voltar. — Falei, tentando soar reconfortante. — Agora, vamos. Já passou da hora.
— Tá bom.
Ele não discutiu. Apenas bocejou, um som pequeno e agudo.
— Eu preciso comer alguma coisa. — Murmurei, mais para mim do que para ele. — Você... fique aí um minuto.
Fui para a cozinha. A luz fluorescente sob os armários estava acesa. A Sra. Higgins estava terminando de secar uma panela, o avental estava dobrado sobre o balcão. Ela parecia exausta.
— Sr. Blackwood. — Ela se endireitou quando entrei. — Graças a Deus. Achei que o senhor passaria a noite no hospital com toda aquela confusão que passou no noticiário.
— Quase passei, Higgins. — Afrouxei a gravata, puxando-a do pescoço e jogando-a sobre a ilha da cozinha. — Mas achei que seria irresponsável, dadas as novas circunstâncias aqui.
Ela assentiu, compreensiva.
— Sobre isso, senhor... Eu entrevistei as candidatas. A nova babá começa amanhã às sete da manhã.
— Ótimo. Pague o que ela pedir. Dê carta branca para ela organizar a rotina desse menino. Eu não tenho tempo para microgerenciar os horários dele.
— Sim, senhor. — Ela hesitou. — Deixei um pouco de lasanha no forno. O menino... ele comeu pouco no jantar. Estava agitado.
— Obrigado, Higgins. Pode ir. Você fez um bom trabalho hoje.
— Boa noite, senhor.
Ela saiu pela porta de serviço, e eu fiquei sozinho na cozinha.
Abri o forno. A lasanha estava morna, mas seca. Tirei um pedaço generoso, coloquei num prato e levei ao microondas para devolver um pouco de vida ao queijo.
Encostei-me no balcão, fechando os olhos por alguns segundos.
O microondas anunciou o fim do ciclo.
Peguei o prato quente e os talheres e fui para a mesa de jantar de vidro temperado.
Sentei-me na cabeceira.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!