LEAH HAMPTON
— Denúncia. — Repeti a palavra, sentindo um gosto amargo l na boca. — Eles estão falando em denúncia formal ao RH por conflito de interesses?
— Estão falando de tudo, Leah. — Cinthia sussurrou. — Conflito de interesses, nepotismo, troca de favores. O Sterling, aquele residente babaca que você cortou da cirurgia do Henderson, está liderando o coro. Ele diz que o único motivo para você ser tão jovem e Chefe de Trauma é porque você "conhece os caminhos certos para o topo".
Aquele velho discurso misógino. Se uma mulher sobe rápido, é porque dormiu com alguém. Se um homem sobe rápido, é porque é um gênio.
Respirei fundo, forçando meus ombros a relaxarem.
— O Sterling é um idiota frustrado que não sabe suturar um fígado sem tremer. — Falei, ajeitando meu coque. — E a denúncia? Bem, é um direito deles. O manual do hospital permite denúncias anônimas sobre conduta ética. Se eles acham que eu estou violando as regras, que denunciem.
Cinthia me olhou como se eu tivesse dito que ia pular da janela.
— Você está calma com isso? Leah, isso pode acabar com a sua carreira! Se abrirem uma sindicância...
— Se abrirem uma sindicância, eles vão ver que meus números de mortalidade são os mais baixos em cinco anos e que o orçamento do Trauma está equilibrado. — Falei com firmeza. — A verdade é a minha defesa, Cinthia.
Olhei para o relógio. 13:15.
— E agora, eu tenho uma vesícula para tirar. A laparoscopia da Sra. Gomes não pode esperar.
— E... — Cinthia hesitou, mordendo o lábio. — E você vai continuar? Com ele? Com o Diretor?
Parei na porta do vestiário. A imagem de Markus na cama hoje de manhã, com o cabelo bagunçado e aquele sorriso preguiçoso, veio à minha mente.
Sorri. Um sorriso pequeno, mas inabalável.
— Dra. Mendes, isso é um assunto pessoal que eu não discuto em ambiente de trabalho. — Pisquei para ela. — Mas se você quiser me pagar uma bebida depois do plantão... podemos conversar sobre a vida fora daqui.
Os olhos de Cinthia brilharam.
— Fechado. Manda mensagem quando acabar. E, Arrasa na vesícula.
Saí do vestiário.
Curiosamente, o desconforto no meu peito tinha sumido. O medo que eu sentia de ser "descoberta" evaporou. O segredo tinha sido revelado. O pior cenário estava acontecendo agora.
Se eles sabiam, sabiam. Que falassem. Eu tinha trabalho a fazer.
Caminhei pelos corredores com a cabeça erguida. Ignorei os sussurros. Ignorei os olhares de soslaio das enfermeiras da triagem. Ignorei o sorriso presunçoso do Sterling quando passei por ele.
Entrei na sala de cirurgia, lavei as mãos, coloquei a máscara e fiz o que eu nasci para fazer.
A laparoscopia foi rotineira. A vesícula da Sra. Gomes estava inflamada, mas saiu sem complicações. Minha mente estava focada. Quando eu estava com um bisturi na mão, ninguém podia questionar minha competência.
Quando terminei e saí do bloco cirúrgico, eram 15:30.
Meu pager tocou.
Não era um código de trauma, nem uma emergência médica.
Era uma convocação.
COMPARECER AO DEPARTAMENTO DE COMPLIANCE E ÉTICA. SALA 402. IMEDIATAMENTE.
Olhei para a tela pequena. Compliance.
Então, eles realmente fizeram. A denúncia foi formalizada.
— Ok. — Guardei o pager no bolso. — Vamos nessa.
Não troquei de roupa. Fui com o pijama cirúrgico mesmo. Era a minha farda e quem eu era.
Subi para o quarto andar, onde ficavam os escritórios administrativos "sérios" como o RH, Jurídico, Compliance.
Cheguei à sala 402. A porta estava fechada. Havia uma placa dourada: Comitê de Ética Institucional.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!