LEAH HAMPTON
O final do turno trouxe aquela sensação peculiar de liberdade com exaustão óssea que só quem trabalha em um hospital conhece. Era como se, ao cruzar as portas automáticas de vidro para o ar noturno de Nova York, eu estivesse despindo uma segunda pele pesada.
Peguei meu celular enquanto caminhava para a saída dos funcionários.
Eu: Estou saindo do trabalho. Indo encontrar a Cinthia agora.
Guardei o aparelho no bolso do casaco antes que Markus pudesse responder. Eu teria um momento "sem Markus" para processar o fato de que minha vida agora era "muito Markus".
Avistei Cinthia parada perto da guarita de segurança, tremendo levemente no vento frio, abraçada à própria bolsa. Quando me viu, ela abriu um sorriso radiante.
— Leah! — Ela acenou. — Achei que tivesse sido sequestrada por alguma emergência de última hora.
— Quase. O Dr. Morris tentou me arrastar para discutir a escala do mês que vem, mas eu usei minha técnica ninja de fingir que recebi um bipe e fugi.
Cinthia riu, caminhando ao meu lado em direção ao estacionamento.
— Um dia eu aprendo essa técnica. Por enquanto, eu sou a residente que diz "sim, senhor" e chora no banheiro depois.
Chegamos ao meu carro.
— Uau. — Cinthia deslizou a mão pelo capô antes de entrar. — Eu adoro esse carro. Cheiro de gente bem-sucedida... Eu estou juntando cada centavo do meu salário de residente escrava para comprar o meu. Provavelmente vai ser um usado com cheiro de batata frita, mas vai ser meu.
— Você chega lá, Cinthia. — Entrei no banco do motorista e liguei o aquecedor. — E quando chegar, vai perceber que o carro é ótimo, mas o que você realmente quer é tempo para dirigi-lo.
— Detalhes, detalhes. — Ela afivelou o cinto. — Para onde vamos?
— Tem um barzinho na 48, o The High Note. É tranquilo e tem música baixa.
— Perfeito.
O trânsito estava fluindo surpreendentemente bem para uma noite de semana.
Estacionamos perto do bar e descemos. O ar estava gelado, mas o interior do The High Note era acolhedor, com painéis de madeira escura e iluminação âmbar. Encontramos uma mesa num canto discreto, longe da porta e de olhos curiosos.
Fizemos nossos pedidos, um Cosmopolitan para ela, uma taça de vinho tinto para mim.
Assim que o garçom se afastou, Cinthia apoiou os cotovelos na mesa e me olhou com uma expressão que eu conhecia bem: curiosidade.
— Então... — Ela começou, girando a bolacha de chope na mesa. — Eu ia te perguntar o que aconteceu na sala do Compliance, se você ia continuar com ele ou se tinha sido demitida... mas aí meu celular vibrou há uma hora.
Franzi a testa.
— Vibrou?
— O comunicado interno. — Ela sorriu, um sorriso de lado. — Aquele e-mail institucional que todo mundo recebe. "Reforço das Políticas de Respeito e Privacidade". Basicamente, um jeito elegante de dizer: "Cuidem da vida de vocês e deixem a dos outros em paz".
— Foram bem rápidos.
— Então, eu não preciso mais da resposta. — Cinthia ergueu uma sobrancelha, divertida. — O comunicado não negou nada. E se você ainda é a minha Chefe e ele ainda é o Diretor, e ninguém foi escoltado para fora do prédio por seguranças... deduzo que o casal continua firme e forte.
— Sim. Continuamos.
— Fico feliz por você, Leah. De verdade. Você merece alguém a sua altura. E, convenhamos, o homem é um monumento. Se eu fosse você, também enfrentaria o RH sorrindo.
Nossos drinks chegaram.
Cinthia levantou a taça de Cosmopolitan.
— Então, um brinde à sua felicidade. E ao fato de que amanhã ainda temos emprego.
Levantei minha taça, tocando a dela.
— À felicidade.
Bebemos. O vinho desceu quente e reconfortante.
— Vi a escala nova. Eu tenho um plantão de 22 horas seguidas na sexta-feira. Vinte e duas horas, Leah. Eu vou começar a alucinar e ver elefantes cor rosa na UTI.
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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!