MARKUS BLACKWOOD
Sábado. O dia que deveria ser de descanso se transformou num exercício de paciência e autocontrole digno de um monge.
Leah tinha saído cedo para o plantão no hospital. Eu odiava que ela trabalhasse mais do que eu. Mas hoje, especificamente, a ausência dela deixava a cobertura mais sufocante e incomoda.
Porque Patrícia estava na minha sala.
Por conselho do meu advogado para mostrarmos "boa vontade" antes da audiência de custódia, eu tive que permitir uma visita supervisionada. Quatro horas. Na minha casa. Comigo presente.
Patrícia estava sentada no sofá, vestida como se fosse para um chá de caridade, tentando engajar Mark numa conversa. Eu estava sentado no braço da poltrona oposta, com os olhos fixos nela como um falcão. Eu não ia dar a ela a chance de dizer a um juiz que eu a proibi de ver o filho ou que criei um ambiente hostil. Mas também não vou deixar que leve ele onde quiser ou fale sem pensar.
— Então, Markinho... — Patrícia sorriu, aquele sorriso brilhante e falso. — A mamãe estava pensando... o apartamento novo é tão grande. Tem um quarto enorme só pra você. Você não quer voltar a morar com a mamãe?
Mark, que estava sentado no tapete montando um castelo de blocos, nem levantou a cabeça.
— Não. — Ele respondeu, simples e direto.
O sorriso de Patrícia vacilou.
— Não? Mas por que, querido? A mamãe sentiu tanto a sua falta.
— Eu gosto de morar aqui. — Mark encaixou uma peça vermelha. — Com o papai e com a Leah.
Sorri de canto, cruzando os braços. A menção do nome de Leah foi como uma alfinetada em Patrícia. Vi os músculos do pescoço dela se contraírem.
— A Leah é só uma amiga do papai, querido. — Patrícia tentou corrigir, a voz ficando um pouco mais aguda.
— Ela é a namorada do papai. — Mark corrigiu antes de eu ter a chance.
— Mesmo assim, ela não é da família. A mamãe pode te dar muito mais coisas. Posso te levar na Disney, posso comprar aquele videogame novo... tudo o que você quiser.
Mark finalmente levantou os olhos. Ele olhou para a mãe com uma sabedoria que não condizia com seus quatro anos.
— O papai também me dá tudo o que eu quero. — Ele disse. — E quando o papai diz não, a Leah dá.
Segurei uma risada. Ponto para a Leah.
— Tipo o quê? — Patrícia pressionou, irritada.
— Tipo sorvete de super-herói. E ela brinca comigo de chão é lava. Você nunca brinca de chão é lava, mãe. Você diz que suja a roupa.
Patrícia ficou vermelha. Ela se levantou do sofá bruscamente.
— Isso é ridículo! — Ela explodiu, perdendo a postura de mãe boazinha. — Você está sendo malcriado, Mark! Vá para o seu quarto agora!
Mark se encolheu, assustado com o grito repentino. Os olhos dele se encheram de lágrimas.
Levantei-me da poltrona ficando entre ela e o meu filho.
— Mark, vá para o seu quarto, por favor. — Falei, com a voz calma. — Leve os blocos.
Mark obedeceu, correndo para as escadas, feliz por escapar.
Assim que sumiu lá em cima, virei-me para Patrícia. A calma desapareceu.


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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!