MARKUS BLACKWOOD
Acordei com o som de louça batendo e o cheiro torturante de café fresco invadindo minhas narinas.
Tentei me mexer, mas meu corpo respondeu com um protesto violento. Minhas costas estalaram em três lugares diferentes. Aquele sofá premiado, que custou o equivalente a um carro popular e que eu sempre admirei pela estética, se revelou durante a noite um instrumento de tortura medieval disfarçado de couro nobre.
Meu pescoço estava travado num ângulo de quarenta e cinco graus. Tenho certeza de que a costura chique do estofado estava impressa em relevo na minha bochecha esquerda. Minhas pernas, que eram longas demais para o móvel, passaram a noite penduradas para fora, e agora meus pés estavam formigando.
Sentei, gemendo baixinho, esfregando o rosto na tentativa inútil de recuperar alguma dignidade. O relógio digital no painel da TV marcava 06:45 da manhã. O sol entrava pelas janelas enormes da cobertura, iluminando minha vergonha.
Me arrastei até a cozinha, sentindo cada músculo reclamar.
Leah estava sentada à ilha de, em sua roupa de trabalho, tomando café e lendo algo no tablet. Ela parecia fresca, descansada e fria como um iceberg no Atlântico Norte.
A Sra. Higgins, que geralmente me recebia com um sorriso maternal e a pergunta "Ovos mexidos ou pochê, Sr. Blackwood?". Hoje, ela nem se virou. Continuou mexendo uma panela com uma força desnecessária, emanando uma aura de reprovação.
Limpei a garganta, tentando parecer o dono da casa e não um inquilino indesejado.
— Bom dia. — Minha voz saiu rouca, parecendo lixa grossa.
Leah nem levantou os olhos da tela do tablet.
— Bom dia. — Ela respondeu. O tom era neutro.
Caminhei até a cafeteira, me sentindo um intruso na minha própria cozinha. Peguei uma xícara, tentando ignorar a dor na lombar.
— O Mark já acordou? — Perguntei, servindo o café preto e forte.
— Ainda não. — Leah respondeu, finalmente levantando os olhos para me encarar. O olhar dela varreu meu pijama amassado e meu cabelo despenteado com indiferença. — Ainda está cedo.
Dei um sorriso amarelo, tentando quebrar o gelo.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!