MARKUS BLACKWOOD
— E então, Dra. Hampton? Você aceita a missão de consertar este hospital comigo, ou prefere apenas continuar reclamando da administração no terraço?
— Bem...
Leah Hampton olhou para a pasta na mesa como se estivesse com medo do conteúdo.
Enquanto ela processava a informação, eu aproveitei o silêncio para processá-la.
Eu já tinha decorado a ficha dela. 35 anos. Formada com honras. Especialização dupla. Publicações em revistas de alto impacto sobre controle de danos em trauma torácico.
Mas a ficha não descrevia a mulher sentada na minha frente.
Era... intrigante.
Ela era pequena. Eu chutaria 1,59m, talvez 1,60m em um dia bom. Quando estávamos no centro cirúrgico, eu tive que me curvar consideravelmente para operar no mesmo campo que ela, enquanto ela provavelmente precisava de um banquinho para ver por cima do ombro de um residente alto.
O cabelo dela era castanho escuro, caindo em ondas e cachos que pareciam ter vontade própria, desafiando o coque frouxo que ela tentava manter. Era diferente do padrão liso e escovado que eu via nas esposas dos membros do conselho ou nas executivas com quem eu costumava lidar. Esses cachos a destacavam.
E havia sardas. Uma constelação delas espalhada sobre a ponte do nariz e as maçãs do rosto, visíveis mesmo sob a luz artificial do escritório. Elas davam a ela um ar juvenil, imagino que seja fofa quando franze o nariz ou sorri de verdade.
Olhos grandes. Castanhos. Expressivos demais para um cirurgião de trauma, que geralmente treinava para ter o olhar morto de um tubarão. Os dela entregavam tudo: o medo de ser demitida, a surpresa, a ambição cautelosa.
Eu me peguei pensando em como aqueles olhos ficariam em outras situações. Se eles brilhariam com a mesma intensidade fora de uma sala de emergência.
— Sr. Blackwood?
Uma mão pequena acenou na frente do meu rosto, cortando minha linha de pensamento imprópria.
Pisquei, recuperando o foco. Eu tinha me desligado por um minuto inteiro. Inaceitável.
— Perdão. — Pigarreei, endireitando a postura. — Estava... pensando em algo que devo fazer.
— Ah. Claro. — Ela sorriu, um sorriso nervoso, mas genuíno. Ela respirou fundo, colocando a mão sobre a pasta. — Eu aceito o cargo, Sr. Blackwood. E eu prometo que vou fazer o Trauma Center deste hospital ser referência nacional. Não vou decepcionar a sua confiança.
Senti uma satisfação sólida se assentar no meu peito. Sei que tinha feito a aposta certa.
— Tenho certeza que não vai, Dra. Hampton.
Levantei-me e estendi a mão. Ela se levantou também, e a diferença de altura ficou cômica novamente. Ela teve que olhar para cima para encontrar meus olhos.

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Os comentários dos leitores sobre o romance: Querido chefe, os gêmeos não são teus!