O cheiro de baunilha invade a cozinha enquanto passo a espátula pelas laterais da tigela, ignorando a presença rígida da Sra. Mallory ao meu lado.
A governanta me observa como se eu estivesse cometendo um delito imperdoável, só porque decidi fazer um bolo.
Ela abre a boca assim que despejo a massa na forma, provavelmente pronta para me repreender pela terceira vez, mas se cala quando ouvimos a porta da frente se abrir.
— Ivy! — Oliver grita, vindo correndo da sala. — O papai chegou!
— Já? — murmuro, olhando para o relógio.
São apenas cinco e meia. Lucas costuma chegar bem mais tarde, mas, considerando a reunião que ele teve hoje com o pai da Blair…
Peço à Sra. Hargrove que leve o bolo ao forno e vou para a sala. Lucas está tirando o paletó, com a gravata frouxa no colarinho e uma expressão… exausta.
— Oi — digo, me aproximando. — Como foi?
Ele me puxa para seus braços imediatamente, escondendo o rosto no meu pescoço.
— Exatamente como eu esperava — murmura contra a minha pele.
— Tão ruim assim? — pergunto, acariciando as costas dele.
— Não foi ruim — responde, se afastando um pouco para me encarar. — Foi… previsível.
Franzo a testa, apreensiva, mas antes que eu consiga perguntar mais alguma coisa, Oliver vem correndo e puxa a mão do pai.
— Papai, vem ver! A Ivy tá fazendo bolo de chocolate!
Lucas sorri, acariciando os cabelos do filho.
— Já vou, campeão. Só preciso conversar com a Ivy primeiro, tudo bem?
Oliver concorda com a cabeça e volta correndo para a cozinha.
Lucas segura minha mão e me leva até o escritório, fechando a porta rapidamente.
— O que aconteceu? — pergunto, enquanto mil cenários passam pela minha cabeça.
Ele solta um suspiro, passa a mão pelos cabelos e se senta na beirada da mesa.
— Alfred está completamente insatisfeito — diz, direto ao ponto. — E usou a multa do contrato que rompi como pretexto para ir até a empresa deixar isso bem claro.
Meu estômago se contrai enquanto ele descreve a reunião, que mais pareceu uma audiência informal.
Então, quando ele menciona o valor da multa com a mesma naturalidade de quem comenta o preço do café, meu queixo praticamente toca o chão.
Cinquenta milhões. Meu Deus.
— Lucas… — começo, sentindo a culpa pesar no peito. — Você não precisava chegar a tanto. Cinquenta milhões é…
— Dinheiro — ele corta, segurando meu rosto entre as mãos. — Só isso. E eu posso pagar sem afetar nada.
— Mas…
— Sem “mas” — ele interrompe outra vez e beija minha testa. — Alfred vai tentar me atingir de outras maneiras, eu sei. Só que não vai conseguir, porque já me antecipei.
— Você tem certeza? — pergunto, ainda inquieta.
— Absoluta — murmura, com um sorriso confiante. — Então, para de carregar esse peso, ok? Ele não é seu.
Assinto, tentando me convencer.
Ele me abraça outra vez, e ficamos alguns segundos em silêncio, como se o mundo lá fora pudesse esperar.
— Não — digo, sem pensar duas vezes, e ele franze a testa.
— Como assim, não?
— Lucas, já tem coisa demais acontecendo. Se Alfred sequer suspeitar disso, a situação pode piorar — respondo, negando com a cabeça. — Então, façam o que quiserem com essa investigação, mas em sigilo. Sem envolver a polícia agora.
— Ivy…
— Lucas, por favor, me escuta — interrompo, firme. — Se a polícia for atrás da Blair e o pai dela descobrir que, depois de tudo, ainda estão investigando a filha… isso pode virar algo muito maior que ameaças. E eu não vou arriscar. Principalmente agora, com o processo da guarda do Liam.
Ele me encara por alguns segundos, decidindo se cede ou não.
— Você tem certeza? — pergunta, mais baixo. — Porque, se ela realmente fez isso…
— Eu quero que ela pague — afirmo, segurando o rosto dele. — Mas não a qualquer custo. Então, por favor… sigilo. Até termos certeza.
Lucas solta um longo suspiro e, por fim, concorda com a cabeça.
— Tudo bem. Nada sai daqui até termos provas concretas.
— Obrigada — sussurro, encostando a testa na dele.
Ficamos assim por alguns instantes, tentando organizar o caos, até que o celular dele vibra no bolso.
Lucas suspira, pega o aparelho e olha para a tela. As sobrancelhas se juntam na mesma hora.
— Quem é? — pergunto, curiosa.
— Não sei — murmura, virando o telefone para mim.
Número desconhecido.

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