“Blake Reeve”
Há uma diferença entre uma missão que falha… e uma que falha porque alguém não fez o trabalho direito.
Eu não tolero nenhuma das duas. Mas a segunda tem um nome, e, nessa noite, esse nome era Donovan.
Saio da sala dos Sinclair e caminho pelo corredor da mansão com a cabeça já em outro lugar. Os Sinclair vão precisar de tempo para processar o que foi decidido.
A família vai falar, vai discutir, vai ter aquelas conversas que famílias têm quando o problema finalmente se torna real.
Esse não é o meu espaço. Meu espaço é o lado de fora da porta.
Desço as escadas da entrada e paro no caminho de pedras, de frente para os dois homens posicionados no jardim.
— O turno da noite começa às vinte e duas — digo, sem parar. — Nenhuma movimentação sem confirmação via rádio. Se ela acender uma luz depois das onze, eu quero saber.
— Sim, senhor.
Sigo para o carro sem olhar para trás.
Quando sento no banco do motorista, fico parado por um momento, com as mãos no volante, sem ligar o motor.
Uma xícara de café. Em um edifício com controle de acesso, sistema de câmeras e quatro homens meus em rotação.
Fecho os olhos por um segundo.
Eu não falho. E não é um padrão de excelência que estabeleci para impressionar alguém.
É uma promessa que fiz para mim mesmo em uma tarde em que aprendi, da pior maneira possível, o que acontece quando alguém falha.
Hoje estive perto disso. Não vou permitir chegar a esse extremo novamente.
Ligo o motor antes que o pensamento dure mais do que o necessário e dirijo até o pub onde meu sócio já está esperando.
Quando entro no pub, vejo Elijah sentado no banco do fundo, com um copo à sua frente e a postura de ex-militar que nunca abandona o hábito de sentar de frente para a entrada.
Igual a mim.
— Quarenta minutos — diz, sem levantar o olhar do copo. — Novo recorde.
— Tive um imprevisto.
— Você sempre tem um imprevisto — comenta, finalmente me olhando.
Me sento, já sinalizando para o bartender.
O pub é o tipo de lugar que escolhemos porque tem bourbon decente e iluminação baixa o suficiente para que ninguém precise fazer perguntas.
O bartender já me conhece o suficiente para não esperar pedido. O copo aparece na minha frente poucos segundos depois, com o mesmo bourbon de sempre.
— Você está com aquela cara — diz, se endireitando na banqueta.
— Só tenho uma cara.
— Na verdade, tem duas. A cara de trabalho e a cara de trabalho que deu errado. Essa daí é a segunda.
Dou um gole no whisky, em silêncio.
Elijah Cruz me conhece há quinze anos, desde o exército, e uma das poucas coisas que aprendi a aceitar nesse período é que ele raramente está errado quando faz esse tipo de observação.
O que não significa que eu vá confirmar.
— Como está o caso do porto? — pergunto.
Elijah me olha por um longo momento e sei que ele não vai parar até que eu responda.
— Olhos verdes — digo, por fim, sem tirar os olhos do copo. — Cabelos escuros, alta, corpo proporcional, postura…
— Para — ele corta, levantando a mão. — Isso aí está parecendo retrato falado de suspeito, não descrição de mulher.
— Você perguntou como ela é.
— Perguntei como ela é, não como alguém descreveria para a polícia se ela desaparecesse — retruca, apoiando o cotovelo no balcão. — Sei como Sophia Sinclair é fisicamente.
Dou mais um gole no whisky, sem pressa. Elijah solta um suspiro curto, girando o bourbon no copo antes de continuar.
— Deixa eu reformular — diz, girando os olhos. — Ela é do tipo que segue protocolo… ou do tipo que faz o protocolo correr atrás dela?
— Ela é do tipo que consegue tirar qualquer homem do sério — digo, por fim. — E não é do jeito que você está pensando. Nem de longe.
Ele levanta a sobrancelha, como quem diz “isso finalmente está melhorando”.
— Sophia questiona tudo. Qualquer instrução, protocolo ou decisão, ela trata como uma opinião aberta à negociação — explico, respirando fundo. — E quando explico a lógica, ela rebate como um ataque pessoal. Como se eu fosse o culpado por virar a vida dela de cabeça para baixo, não alguém responsável por mantê-la viva.
— Interessante — murmura, mais para si do que para mim. — E você não gosta disso.
— Não é sobre gostar — respondo, sem levantar o olhar. — É sobre…
Minha fala é interrompida pelo toque do meu celular. Olho para a tela: número interno. Um dos homens no turno da noite.
— Reeve.
— Sr. Reeve. Pedimos desculpas pela interrupção — ele faz uma pausa, curta demais para ser boa. — A Srta. Sinclair não está no quarto. Ela simplesmente…
— Sumiu — concluo, já levantando.

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