Deixo o copo e o dinheiro no balcão, enquanto Elijah analisa meu rosto. Não preciso dizer que há algo errado, ele sabe me ler melhor do que ninguém.
— Terminamos essa conversa depois — murmuro, ajustando a arma no coldre.
Não espero resposta e saio rápido do pub. O ar frio de Manhattan me atinge assim que passo pela porta.
O número interno toca uma segunda vez antes de eu chegar ao carro, mas não atendo. Não preciso.
Já sei o que o homem do outro lado da linha vai dizer, e prefiro gastar o tempo descobrindo onde ela.
Ligo para o responsável pelo turno enquanto entro no carro.
— Quando foi a última confirmação visual?
— Vinte e uma e cinquenta, senhor. Ela disse que ia para a biblioteca.
— Passaram-se dez minutos até vocês finalmente irem verificar — respondo, seco. — Até cumprirem a porra da função de vocês.
Desligo sem esperar resposta e ligo o motor.
Dirijo com uma mão no volante e o telefone na outra, acessando o sistema de câmeras externas da mansão dos Sinclair.
Levo quarenta segundos para encontrar o que preciso: a janela do corredor lateral, aberta. A porta dos fundos foi usada às vinte e uma e cinquenta e três. Um Uber solicitado de um número que reconheço, porque é o dela.
Sophia Sinclair saiu pela janela. Pediu um carro pela porta dos fundos. Burlou quatro homens treinados com a mesma facilidade com que se troca de roupa.
Fecho os olhos por exatamente dois segundos.
Cinco demissões em menos de doze horas, graças a uma protegida que parece não ter noção do perigo.
Quando chego ao prédio dela no Upper East Side, o porteiro me recebe com um sorriso profissional e libera a minha entrada sem que eu precise me identificar.
— Ele realmente liberou a minha entrada só porque já me viu aqui há alguns dias — murmuro, apertando o botão do elevador com mais força do que o necessário.
É exatamente o tipo de detalhe que confirma o que eu já sabia: esse prédio nunca foi seguro.
E a primeira falha não vem da câmera no corredor ou da fechadura da porta, mas do homem que deveria ser a primeira barreira e que abre passagem quando alguém anda com confiança suficiente.
O elevador sobe devagar demais para o estado em que estou, me obrigando a cruzar os braços e contar cada andar como se o número pudesse organizar alguma coisa.
Não pode.
Quando finalmente chego em frente à porta da cobertura, nem sequer penso em bater.
Se houver alguém lá dentro além da Sophia, batidas vão chamar a atenção. Se ela estiver sozinha, bem… que o susto sirva de lição.
Tento uma vez. Na segunda, a porta cede. Fechadura padrão, sem reforço, sem sistema secundário. Outra falha grave.
Entro sem fazer barulho e checo o apartamento por instinto antes de qualquer outra coisa. Sala, cozinha, varanda, corredor.
Nenhum acesso comprometido além da entrada principal. Nenhuma presença além da que eu já sabia que estava aqui.
Me aproximo do quarto, que está com a luz acesa, e paro na entrada.
Ela abre a boca, mas estou puto demais para ouvir qualquer justificativa ensaiada.
— Se fosse ele aqui agora, e não eu, você poderia estar no chão desse quarto com o pescoço aberto, se afogando no próprio sangue, e nenhum dos meus homens chegaria a tempo de fazer qualquer coisa a respeito.
Sophia me encara em silêncio. Pela primeira vez, não revira os olhos nem rebate minhas palavras. Por um momento, ela parece sentir o peso exato do que acabei de dizer.
Por fim, respira fundo.
— Estou bem — diz, se virando para a mala. — Vivinha. E arrumando minhas coisas, como pode ver.
Respiro pelo nariz, devagar, pensando nos cinco homens que perdi hoje. No porteiro que me deixou passar sem verificar nada. Na fechadura que cedeu na segunda tentativa.
Pensando em como essa mulher não segue padrão nenhum.
Ela não vai facilitar o trabalho de nenhum dos homens que tenho. E eu não tenho tempo para treiná-los contra… alguém que parece fazer questão de andar na direção exata do perigo.
Nem contra alguém que consegue transformar uma noite simples em um problema operacional.
Só há uma solução para manter Sophia Sinclair a salvo. A mais racional, embora eu não goste nem um pouco dessa opção.
— Você não quer ser protegida — digo, por fim. — Você quer continuar no controle.
Ela me olha, esperando o restante.
— É justamente por isso que você está indo para Chicago. E eu vou junto.

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