Entrar Via

A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar romance Capítulo 164

Elas continuaram caminhando. Às vezes Letícia se adiantava um passo, e o vestido sussurrava pelo caminho, às vezes Aurora puxava a mãe de volta, querendo contar cada detalhe.

— Mamãe, você acha que a Isa vai acordar quando eu chegar?

— Acho que ela vai te ouvir antes de abrir os olhos. — respondeu Letícia. — E, quando abrir, vai reconhecer a luz. A sua luz.

— Eu vou levar a tiara. — decidiu Aurora. — Se a luz dela estiver fraquinha, empresto a minha. Depois ela me devolve.

— Combina com ela. — sugeriu Letícia. — As trocas, quando são feitas com amor, voltam maiores.

Pararam onde o jardim parecia começar de novo. Ali, um banco de madeira esperava sob a sombra de uma árvore antiga. Letícia sentou-se e puxou Aurora para o colo. A menina acomodou-se naquele afago que nenhuma cama do mundo iguala.

— Lembra do dia em que você plantou o feijãozinho? — retomou Letícia. — Você acordava, olhava para o algodão e perguntava: “Já cresceu? Já cresceu?”. Crescer leva tempo, minha estrela. Curar também. Amar também. É preciso água, sol e cuidado. A Isa está nesse tempo de brotar outra vez. E você é parte do sol dela.

Aurora assentiu, absorvendo cada sílaba como quem guarda bússolas no bolso.

— Mamãe… — ousou a menina — e se eu acordar e esquecer o caminho do jardim?

— Não tem problema. — disse a mãe, beijando-lhe o alto da cabeça. — O jardim sempre vai existir dentro de você. E a mamãe sempre vai morar aqui dentro. — Leticia levou a mão ao peito de Aurora e tocou o lugar com ternura.

Elas ficaram algum tempo apenas olhando as borboletas. Aurora percebeu que cada uma delas parecia carregar um pedacinho do céu nas asas. A menina encostou a orelha no peito da mãe e ouviu algo parecido com o mar.

— Está quase na hora. — avisou Letícia, com doçura. — Quando você acordar, pede para a vovó te levar ao hospital. Leva a caixa de coragem. Se o papai estiver com medo, dá a ele um dos pãezinhos — o sorriso fez cócegas no ar — e diz que eu disse para ele respirar. Diz que está tudo caminhando.

— E o Benjamim? — Aurora quis confirmar, como quem confere se fechou a porta.

— Cuida dele. — pediu Letícia, e o pedido veio com uma luz que pousou nos ombros da menina como um xale de verão. — Ensina para ele as palavras que você gosta, os nomes das constelações do seu pijama, a história do dia em que você aprendeu a nadar sem rodinha. Quando ele chorar, você vai saber o que dizer, porque o seu coração já quer bem a ele faz tempo, mesmo antes do nome. Fala o nome dele, Aurora.

— Benjamim… — disse a menina, e o nome soou como semente caindo em terra boa. — Eu sou a sua irmã. Vem logo, tá? A gente tem muito pão de queijo para dividir.

Letícia sorriu, e havia no sorriso algo de promessa cumprida. Ela ajeitou uma mecha do próprio cabelo, olhou a filha de um jeito que ninguém no mundo imita, e sussurrou:

Antonella levou a mão à boca, deixando que a emoção transbordasse pela primeira vez naquele dia. Giulia sorriu com água nos olhos, e as três se abraçaram no meio da sala, onde a luz da manhã começava a pousar.

— Então vamos. — disse a avó, com a voz de quem tem uma missão. — Vamos levar a sua voz para a mamãe Isa.

— E a caixa de coragem. — completou Giulia, pegando-a com cuidado, como quem carrega uma relíquia.

Aurora colocou a tiara de estrelas na própria cabeça e pegou suas bonecas de pano. Antes de sair, virou-se para a porta do quarto e, num gesto que não sabia de onde vinha, levou os dedos aos lábios e soprou um beijo para o ar.

— Para você também, mamãe Letícia. — disse, baixinho.

Lá fora, a manhã tinha cheiro de pão e jasmim. A cidade começava a acordar, e, dentro do peito de Aurora, algo novo também acordava, não um heroísmo barulhento, mas a certeza quieta de que a voz dela podia ser ponte. Ela tinha um recado para entregar, uma mão para segurar, um nome para falar ao ouvido de quem ainda dormia: “Benjamim”. E, enquanto caminhavam para a porta, a menina sentiu, como quem sente um arrepio bom, que não estavam apenas três indo ao encontro de Isabella.

Eram quatro.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar