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A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar romance Capítulo 165

Lorenzo Vellardi

O som da UTI tem uma característica própria. Bipes compassados do monitor, o sopro rítmico do respirador, o sussurro das rodas das macas, vozes baixas que entram e saem como maré.

Eu estou sentado ao lado do leito, sem relógio, sem noção de horas. Só sei medir o tempo pela pulsação no pescoço de Isabella, pela luz que muda atrás da persiana e pelo intervalo entre uma prece e outra que eu murmuro só para ela.

Isabella parece pequena nessa cama grande. A pele está pálida, quase translúcida sob a luz branca. Um curativo claro na têmpora, outro protegendo o braço, o soro pingando num ritmo que virou o cronômetro das minhas esperanças. O tubo que lhe atravessa a boca me fere como se atravessasse a minha, cada suspiro que a máquina empurra é uma braçada que eu daria por ela se pudesse.

O médico foi objetivo, traumatismo craniano, um inchaço no cérebro e as próximas horas são cruciais. Entubada, sedada, protegida do mundo para que o corpo tenha tempo de organizar a volta. Eu repito essas palavras sem querer, como se repetir fosse parte do tratamento, como se delas pudesse tirar a promessa escondida que eu preciso ouvir.

Seguro a mão dela. Ela esta quente, e isso me acalma num grau que eu não teria coragem de admitir em voz alta. Eu passo o polegar devagar na base dos dedos, como faço quando ela dorme e eu tenho medo de acordá-la. Falo baixo, bem perto da orelha, para que a sedação não impeça o recado de encontrar caminho.

— Eu estou aqui, meu amor. — Minha voz sai áspera, como quem andou quilômetros por dentro. — Não vou sair. Pode dormir que eu fico aqui, cuidando de você.

Eu sei que a UTI não é lugar para promessas, mas eu as faço mesmo assim. Prometo o que sei e o que não sei, prometo o possível e o impossível, como todo homem que vê, de perto, o milagre e o precipício sentados na mesma cadeira.

Devagar, com cuidado de quem toca cristal, desço a mão até o lençol que cobre o ventre dela. O medo quer apertar minha garganta, e aperta, mas junto com ele existe uma ternura nova, incômoda de tão grande. Eu imagino um coração do tamanho de um grão de feijão batendo lá dentro, obediente, e me sinto menos sozinho. Abro um pouco a coberta, só o suficiente para que minha palma encontre o relevo macio da barriga. Fico assim, com a mão quieta, esperando o meu próprio coração desacelerar para que o que eu sinto de fora não confunda o que pulsa por dentro.

— Ei, pequeno… — digo baixo, como se contasse um segredo — sou eu, o teu pai. Eu sei, eu cheguei atrasado para o anúncio, para a primeira notícia, para o primeiro espanto. Cheguei como chegam os homens que acreditavam que o mundo tinha se fechado para sempre. E você já estava aqui, feito luz escondida. Seja forte como a sua mamãe. Ela é o lugar mais corajoso que eu conheço.

Fico alguns segundos em silêncio, a testa encostada no colchão, o nariz cheio desse cheiro limpo de hospital que eu detesto. Depois, continuo, para ele e para ela, como se a palavra fosse barco:

Por um segundo, a mensagem se sobrepõe à imagem de Isabella, às máquinas e ao tubo. A minha mente me prega uma peça e na hora penso em Aurora ou em algo que possa ter acontecido de pior.

Engulo seco. Com os dedos trêmulos, digito uma mensagem, respondendo que já estou indo, que vou apenas comunicar à enfermeira que estou saindo. Coloco o celular de novo no bolso, ajeito a coberta até o peito dela, afasto o cabelo da testa com a ponta dos dedos, um gesto simples que aprendi a amar como quem aprende música e a beijo outra vez, sussurrando:

— Eu volto em dois minutos, meu amor. — prometo, e o meu corpo todo protesta contra a ideia de me afastar.

Dou dois passos para trás, mas paro, preso no limiar da porta. Sinto o peso de algo não dito, latejando no fundo da minha garganta, quase tão forte quanto a vontade de ficar. E, antes que eu possa evitar, a pergunta se forma, silenciosa, queimando por dentro:

E se, quando eu voltar… nada mais for como antes?

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