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A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar romance Capítulo 167

Lorenzo Vellardi

— Eu vim te dizer, mamãe, que eu te amo muito e quero que volte para nós. — Ela escora os cotovelos na grade, inclina um pouquinho o corpo, como se quisesse ter a certeza de que Isabella iria ouvir. — Eu estou com muitas saudades de você, mamãe… eu fiz brigadeiro, pão de queijo… — a voz treme — eu quero dormir abraçada com você, cuidar de você, te encher de beijos…

Ela começa a fungar, e cada fungada é como uma corda esticada dentro de mim. Eu passo a mão nas costas dela, ritmando um carinho que sempre funcionou para acalmar pesadelos, e agora tento acreditar que serve para minimizar dores.

— Mamãe… — prossegue, forçando o sorrisinho de quem promete —, eu te amo tanto… e já amo o Benjamim.

Meus olhos disparam para ela.

Benjamim…

A palavra b**e no meu peito e volta com eco, como se a UTI inteira tivesse repetido baixinho. Eu olho para a enfermeira, para o monitor, para qualquer coisa que me impeça de fraquejar. O nome não era nosso, não tinha sido dito aqui. E, ainda assim, parece ter nascido conosco.

— Eu vou cuidar dele, mamãe. — continua Aurora, sem perceber a intensidade do que ela fala.. — Vou dar muito amor a ele, eu prometo… mas volta pra mim…

Ela não aguenta.

O corpo pequeno escapa de mim num impulso. Antes que eu consiga contê-la, Aurora se debruça sobre a grade, procura um vão entre tubo e lençol, e se j**a na cama num abraço desajeitado, puro, inteiro.

O ar é sugado da sala como num truque de mágica, por um segundo, todo mundo para. Os enfermeiros, que estavam recolhendo bandejas e conferindo medicações, se entreolham com a mão no peito, as bocas entreabertas e os olhos marejados. Eu me adianto, pronto para pedir desculpas, para retirar, para reparar qualquer regra que quebramos por amor.

— Devagar, meu amor… — sussurro, com uma mão segurando as costinhas dela, a outra protegendo o tubo de ventilação, sentindo o coração bater no pescoço.

E então o inesperado acontece.

O braço de Isabella, que até então repousava inerte, treme. É um tremor miúdo, primeiro um sopro, depois uma maré subindo devagar. Os dedos procuram, tateiam o ar como quem acorda num quarto escuro. Aurora congela, os olhos arregalam, ela fica sem respirar. Eu fico imóvel, com as mãos suspensas, como se qualquer gesto pudesse espantar um pássaro na janela.

A mão de Isabella encontra o ombro da filha e, com uma força que é metade músculo, metade milagre, envolve o corpo pequeno. Não é um abraço inteiro, porque os fios, o tubo, a sedação são empecilhos, mas é o suficiente para me dar esperança. O suficiente para as máquinas manterem seu ritmo sem apitar e, ainda assim, o meu mundo girar um grau e se alinhar com o sol.

Os olhos dela se abrem.

Verdes, marejados, vivos.

Eu vejo primeiro a desorientação, como quem volta de muito longe e precisa reconhecer a margem. Depois, eles buscam, não a mim, mas a Aurora. E o que acontece entre as duas dispensa explicação. É a cena que me faltava para acreditar que o amor, mesmo atravessado por tubos e diagnósticos, não perde o endereço.

Aurora leva a mãozinha à boca, e com os lábios trêmulos sussurra:

— Mamãe…

Os olhos de Isabella piscam devagar, uma, duas vezes, como quem aprende outra vez a obedecer à claridade. Vejo lágrimas se formando em seus olhos e ela se esforçando para erguer mais um pouco o braço e poder tocar no rosto de nossa filha. Mas me adianto, ajustando o travesseiro, aproximando a minha mão para sustentar o movimento. A enfermeira se aproxima num passo leve, confere os parâmetros no monitor, e, ao ver que tudo está dentro da normalidade, apenas encosta dois dedos na minha manga e sussurra:

— Pode deixar. — E abre um sorriso que não cabe no crachá.

Aurora encosta a testa na da mãe, de maneira cuidadosa como eu a instruí, e o abraço se transforma num encaixe seguro. Eu coloco a palma sobre o ventre de Isabella, num gesto que agora tem três destinos. A mão livre dela desliza até tocar o rosto de nossa filha e depois, percebo um sorriso surgindo, mesmo com o tubo ainda na sua garganta.

— Ela abriu os olhos, papai — a menina anuncia, como quem conta um segredo a um rei. — A mamãe está me ouvindo.

Eu rio com a garganta, um som que não sei nomear. Me inclino sobre as duas, beijo a testa de Isabella, e a cabeça de Aurora. E digo para a mulher da minha vida, mesmo sabendo que a voz dela ainda não voltará agora:

— Volta pra nós, meu amor. Precisamos de você.

Aurora segura mais um segundo e se solta, desenlaçando com cuidado do abraço. Eu a pego no colo, giro o corpo para protegê-la de qualquer fio, e a coloco de pé de novo na banqueta. Ela estica a mão e toca a bochecha da mãe com a ponta dos dedos.

— Eu volto amanhã, — promete. — Com mais desenhos e com muitos beijos.

Os olhos verdes respondem com um piscar vagaroso, quase um aceno. Eu beijo a testa de Isabella pela terceira vez, e a terceira é sempre a que firma a promessa.

— Estou aqui. — repito. — E não vou a lugar nenhum.

Saímos da Uti devagar. A porta fecha atrás da gente com um “clique” que hoje não me assusta. No corredor, minha mãe espera com as mãos juntas,e Giulia está ao seu lado e seus olhos não desviavam dos meus. Eu ergo a cabeça e, antes de qualquer explicação, deixo o sorriso acontecer. Aurora ergue a caixa como um troféu silencioso.

— Ela abriu os olhos, vovó. — anuncia, com animação.

Minha mãe leva a mão ao coração, Giulia respira como se tivesse chegado à praia depois de atravessar o oceano a nado. Eu me abaixo, abraço a minha filha, e a caixa fica entre nós, novamente, no lugar exato em que o amor guarda suas ferramentas.

Volto a olhar pela janelinha da UTI antes de a gente se afastar. Isabella está com os olhos fechados outra vez, mas algo essencial ficou aceso. Eu passo a mão no rosto, enxugo o que sobrou de medo, e sinto pela primeira vez desde que recebi aquele telefonema, que tudo vai ficar bem. E, no meio de máquinas e protocolos, eu entendo que a vida, quando decide, encontra uma brecha e hoje, a brecha tinha oito letras. Benjamim. E a voz que abriu a passagem tinha seis. Au-ro-ra.

Eu seguro a mão dela, a pequena mão quente que puxou a nossa família de volta do abismo por um minuto inteiro, e digo:

— Vamos comer um pão de queijo com a vovó e contar para todo mundo o que a mamãe fez?

— Vamos! — ela responde, mas antes encosta os lábios no vidro da janelinha e sopra um beijo. — Boa noite, mamãe. Até amanhã.

Eu replico o gesto em pensamento, e deixo que a noite me abrace com menos garras. Amanhã ela volta cedo. Com mais desenhos, com mais amor e com a certeza teimosa de que, na cama 7 da UTI, o amor já começou a fazer o seu trabalho.

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