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A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar romance Capítulo 168

Lorenzo Vellardi

A madrugada pareceu mais curta do que as outras. Talvez porque, pela primeira vez desde o acidente, eu dormi alguns minutos encostado na poltrona da UTI sem sonhar com coisas ruins. Acordei com um toque no ombro e um sorriso de quem traz notícia boa. Era a enfermeira de voz mansa, a mesma que ontem segurou o choro quando viu a Aurora abraçada à mãe.

— Senhor Vellardi… — ela falou baixo, como se a própria esperança tivesse volume. — os exames da madrugada vieram melhores. A sedação está sendo reduzida. Se tudo correr como pensamos, hoje de manhã vamos testar a respiração dela sem o ventilador. Se o teste for bom… extubamos.

Eu fiquei de pé num salto que a coluna não aprovou. O coração foi para a boca, mas desta vez sem gosto de medo. Meus olhos devem ter pedido “diz de novo”, e ela repetiu, sem se cansar:

— Hoje é um bom dia.

“Hoje é um bom dia”....

Eu quis escrever essa frase na parede. Mandei mensagem para minha mãe : “Reduzindo sedação. Possível extubação.” Giulia respondeu com 18 mãos de oração e um “amém” que parecia acender a lâmpada. Ela disse que estava com Aurora e que, quando fosse a hora, me avisasse: “Ela quer estar perto quando a mamãe acordar, mas a gente controla a ansiedade”.

Respirei fundo e voltei para o leito. Isabella estava como ontem, mas diferente. É difícil explicar, era o mesmo corpo quieto, os mesmos aparelhos, e, ainda assim, havia um “quase” no ar. Quase movimento no canto da boca. Quase resposta na sobrancelha. Quase uma maré subindo por dentro.

Fiquei de mãos dadas com ela. Contei as batidas do monitor como quem conta rosário. Falei do céu lá fora, do café ruim da máquina, do desenho que Aurora tinha prometido trazer. Em algum ponto, Dr. Stephano apareceu. A postura dele era de quem vem com técnica e também com fé.

— Lorenzo… — disse, direto, mas com aquele cuidado que não se aprende em livro. — os parâmetros dela melhoraram. Vamos fazer um teste de respiração espontânea. Se tolerar, tiramos o tubo. Fica aqui, mas deixa a equipe conduzir, combinado?

Eu só balancei a cabeça. Não confio na minha voz nessas horas.

Vieram duas enfermeiras e o médico plantonista da UTI. Explicaram que iam ajustar a ventilação, dar tempo ao corpo dela, observar ritmo, força, oxigenação. Eu ouvi cada palavra como quem aprende uma canção nova. Eles diminuíram o suporte, e eu juro que vi o peito de Isabella encontrar um compasso próprio. O tempo ficou viscoso, a cada meia dúzia de respirações minhas, eu “ouvia” uma dela, na mesma frequência, como se a vida tivesse decidido dançar conosco pela primeira vez em dias.

— Está tolerando bem. — murmurou o médico, com os olhos no monitor e a mão atenta. — Vamos extubar.

Se eu pisquei, não lembro. Vi o tubo sendo desamarrado, a seringa esvaziando alguma coisa, a aspiração rápida, a enfermeira avisando “Isabella, vamos tirar o tubo, respira pelo nariz, isso…”. Eu peguei a mão dela com firmeza de quem segura o barco no atracadouro. Um segundo depois, o tubo estava fora. Colocaram uma máscara de oxigênio por alguns minutos, depois um cateter nasal. Ela tossiu, uma tosse baixa, fraca, mas “dela” e aquele som, foi a música mais bonita que eu já ouvi.

— Muito bem, Isabella. — a enfermeira disse, e o “muito bem” parecia medalha. — Vai ficar rouca, é normal. Poucas palavras, combinado? Hidratar os lábios com gazes, nada de água agora. Qualquer desconforto respira fundo. Estamos aqui.

Os olhos dela ainda estavam fechados. Eu beijei sua testa, feliz como só se fica quando a esperança deixa de ser ideia e vira realidade.

— Você conseguiu, meu amor. — sussurrei. — Eu sabia.

Ela não respondeu. Mas abriu seus olhos e me encarou com aquelas duas esmeraldas que eu amava. E isso foi o suficiente para me fazer chorar pela primeira vez.

— Eu… tive tanto medo de perder você… --- Senti a mão de Isabella tocar o meu rosto e a encarei com intensidade. Ela não falou, apenas moveu os lábios dizendo:

— Eu amo tanto você…

Sorri largo e me aproximei beijando seus lábios com delicadeza, depois encostei minha testa na dela e sussurrei apenas para ela ouvir:

— Eu também.

Depois de uns minutos, ela adormeceu e peguei o meu celular para avisar a minha mãe.

“Extubada e bem.”

Do outro lado, silêncio por alguns minutos em seguida, uma notificação que faz o meu coração acelerar.

“Estamos no corredor com a Aurora. Só entramos quando a equipe liberar.”

Ficamos juntos, eu e ela, nesse intervalo que separa o sono do mundo. O rosto dela ainda estava pálido, mas suas bochechas estavam levemente rosadas. Pensei no nosso bebê. Sempre que penso nele, minha mão desce sozinha e encontra o ventre. Fiz isso de novo. Acariciei devagar, e comecei a conversar baixinho com o meu filho:

— Pequeno… deu certo. A sua mãe está voltando. Continua aí, firme. Hoje é um bom dia também para você.

Isabella mexeu os olhos por baixo das pálpebras, como quem persegue uma claridade. Eu me aproximei, e sussurrei:

— Estou aqui meu amor… Se cansar, dorme. Se conseguir, abre os olhos só um pouquinho pra eu te ver.

Senti o coração quase sair do peito, quando vi os olhos dela estremecerem para se abrirem devagar. As duas esmeraldas me encararam com ternura, um sorriso surgiu na curvatura de seus lábios e eu pude ouvir o som que desejei ouvir há dias…

— Oi… — saiu fraquinho, mas o tamanho daquela palavra para mim, era imensa. Não consegui conter o riso e respondi com os olhos marejados.

— Oi… Não fala muito. Respira. Tô aqui.

Ela tentou articular meu nome. Saiu “Lo…”. O resto ficou preso num fio de ar. Eu encostei a testa na dela e falei por nós dois:

— Eu sei. Eu também.

A profissional mediu, calculou, olhou para mim, olhou para os sinais, olhou para Isabella, que parecia pedir o mesmo. E com um sorriso disse:

— Um minuto. Sem apoiar peso. O papai ajuda. Promete?

--- Prometemos. — respondi com convicção.

Eu inclinei Aurora com todo o cuidado que a palavra “pai” exige numa UTI. Ela se debruçou, deixando apenas o cabelo roçar o ombro da mãe, a bochecha encostou de leve no ponto livre de curativos. Isabella virou um pouco o rosto, abrindo caminho. As duas se abraçaram e pude ver ambas fechando os olhos e se entregando àquele sentimento.

— Eu voltei… — Isabella sussurrou, e foi a frase mais alta que ouvi naquela sala. — Eu voltei para vocês três.

Meu corpo tremeu como se uma febre saísse por fim. Beijei a testa dela. Toquei o ventre com a outra mão, não disse nada, a sala já estava cheia de palavras suficientes.

A enfermeira avisou do tempo. Aurora se recompôs, mas segurou a mão da mãe com todas as forças de uma mão pequena. Eu vi no rosto dela uma coisa nova, que eu chamaria de “responsabilidade feliz” se essa expressão existisse.

— A gente volta mais tarde. — a menina disse, como quem marca encontro. — E vou ajudar a vovó a arrumar a casa para vocês dois.

Isabella piscou devagar, e sorriu.

— Eu te amo mamãe. — Aurora concluiu, e soprou um beijo que pousou no ar e achou destinatário.

Saímos um pouco depois, sentindo o coração aquecido e feliz.

— Hoje é um bom dia. — repetiu minha mãe, e devolveu a frase que começou tudo.

Mais tarde, voltei sozinho. Sentei de novo na poltrona. Isabella dormia, o peito subia e descia com tranquilidade e meu peito se enchia de alegria. Toquei o dorso da sua mão com a ponta dos dedos, para não acordá-la. O silêncio agora não era aquele que doía e sim aquele que trazia paz.

Cheguei mais perto e sussurrei baixinho, só o suficiente para o ar carregar:

— Você prometeu que não ia abandonar a nossa menina. Ela prometeu cuidar de você. Eu prometo cuidar dos três. — Respirei. — Volta devagar, do seu jeito. A casa vai ficar esperando. Eu também.

Hoje foi o dia em que o tubo saiu e a voz voltou em sussurros. O dia em que a nossa filha recitou o nome do nosso filho como chave de porta. O dia em que os olhos verdes abriram e reconheceram a vida. Se amanhã exigir coragem de novo, que exija. A gente aprendeu onde guardar.

Por ora, basta este milagre simples: três mãos enlaçadas sobre um lençol branco. E quatro corações batendo firme, dizendo para quem quiser ouvir: Estamos juntos e isso é o que importa.

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