Lorenzo Vellardi
Os dias seguintes viraram um calendário de milagres miúdos. Não houve uma virada cinematográfica, foi devagar, um botão por vez sendo desabotoado. Isabella saiu da UTI e foi transferida para um apartamento, onde todos puderam visitá-la.
O verde dos olhos dela começou a ficar mais tempo aberto do que fechado, e a mão, antes tão imóvel, buscava a minha com precisão de quem reencontra paz. A obstetra passou todos os dias: e sempre nos tranquilizava dizendo: “O bebê está bem” e eu me agarrava a essa frase como se fosse trilho.
Eu me descobri um homem que espera.
Espera resultado, espera horário de visita, espera o “bom” de cada plantonista. Espera, mas não para. Eu lia em voz baixa o livro favorito da Aurora, contava o que tinha na janela, “hoje o céu está de um azul que nem os teus olhos alcançam” , encostava a cabeça na dela e falava com o pequeno, pedindo que aprendesse com a mãe a arte de resistir.
A cada dia, um passo.
Na manhã em que a médica mencionou “alta em breve”, eu segurei a palavra “breve” com as duas mãos, com medo que escorresse. Demorou ainda mais uns dias, entre exames, ajustes, certezas que a equipe precisava ter. Eu não reclamei de nenhum cuidado. Cada “não ainda” me parecia uma peça a mais que eles encaixavam para nos devolver uma vida inteira, e não uma fotografia.
Então, veio o dia.
A alta.
Isabella sentou-se na cama com a dignidade de quem volta do fundo do mar com uma pérola. A enfermeira trouxe a papelada, explicou medicações, sinais de alarme, repouso, consultas já marcadas, retorno para a fisioterapia. Falou com delicadeza de que o traumatismo craniano ainda poderia provocar, fadiga, fotossensibilidade, dias mais lentos e eu anotei tudo como se estudasse para uma prova que a vida marcou às pressas. A obstetra entrou com um sorriso difícil de disciplinar e um ultrassom impresso na mão: “aqui”, disse, apontando para um pontinho que eu já sabia de cor, “ está o seu filho, e ele cresce teimoso e forte”. Isabella chorou quieta e eu chorei feio.
Na saída, botaram-na na cadeira de rodas, protocolo que não discuti. Empurrei devagar, como quem leva um relicário. O corredor inteiro parecia largo e iluminado, ou talvez fosse só a forma como eu olhava.
Do lado de fora, o ar tinha cheiro de mundo novo. Isabella fechou os olhos e inspirou, como quem volta a habitar o próprio corpo. Eu encostei a testa na dela, e ficamos assim por um instante, sem pressa. Dr. Stephano nos acompanhou até a porta, ajeitou o casaco como se quisesse disfarçar a emoção e disse, baixinho: “Qualquer coisa, eu estou a um telefonema de distância.”
O caminho até em casa foi uma aula de gratidão. Eu dirigi devagar, com a mão esquerda no volante, e a direita entrelaçada na dela, como se a própria estrada pudesse tentar separá-las. Isabella olhava para fora, e cada árvore, cada fachada conhecida, cada padaria com o letreiro aceso parecia nos cumprimentar com um “bem-vindos”. Em alguns semáforos, ela fechava os olhos, não de cansaço, só para guardar a sensação. Eu quis contar tudo que tinha acontecido ali fora, mas decidi ficar calado. Às vezes, a melhor narrativa é o vento pela janela entreaberta.
Chegamos em casa, o portão já estava entreaberto, e antes mesmo de eu tocar a buzina, ouvi o barulho de passinhos apressados na calçada, uma risada alta e uma vozinha que fez tanto eu como Isabella sorrir.
— ELES CHEGARAM!
Parei o carro. Maria correu para abrir a porta do passageiro. Giulia apareceu na varanda, com as mãos no rosto. E Aurora, estava parada na soleira, segurando um cartaz com letras coloridas, adesivos de estrela e, no meio, em tinta caprichada:
“BEM-VINDA, MAMÃE QUERIDA”.
Minha mãe estava atrás de Aurora, com uma mão no ombro da neta e a outra escondendo o choro. Ao lado, duas presenças que fizeram os olhos da Isabella brilharem de um jeito só delas: a avó Flora, com seu xale de florzinhas e um sorriso grande de Beatriz, sua prima, que estava com o celular na mão e o coração nos olhos. E, um pouco atrás, como quem tenta se fazer discreto sem conseguir, o próprio Dr. Stephano, que tinha dito tchau no hospital, mas, pelo visto, nos seguiu de longe para receber Isabella.
— Doutor… obrigada.
— Não me chame de doutor agora. — ele respondeu, apertando a mão dela com delicadeza. — Aqui eu sou só o amigo que veio comer pão de queijo e assistir a um milagre de perto.
A sala virou celebração.
Aurora correu para pegar a “caixa de coragem” e a colocou sobre a mesa de centro, aberta, como um altar de coisas simples. O desenho das três mãos dadas com um coração pequeno na barriga, a tiara de estrelas, dois pãezinhos embrulhados, um pote de brigadeiro quase vazio. Isabella olhou para a caixa como quem revê um diário que não sabia estar escrevendo e riu, aquela risadinha que leva a mão à boca.
— Funcionou. — disse a Aurora. — Sua caixa funcionou.
— Foi a mamãe Letícia que ajudou. — a menina sussurrou, séria. —Em seguida ela se ajoelhou e beijou a barriga da mãe com ternura e sussurrou — seja bem vindo Benjamim.
Houve fotos, abraços, café, e risos contidos para não cansá-la. Flora contou histórias de quando Isabella era pequena e insistia em subir na goiabeira do quintal. Beatriz relembrou o dia em que as duas prometeram, ainda adolescentes, que seus filhos iriam namorar. Antonella, de vez em quando, sumia no corredor e voltava de olhos vermelhos, teve muito medo do passado se repetir e a dor voltar a tomar conta da vida do filho, mas tudo era um verdadeiro milagre.
Dr. Stephano, conversava animado com Beatriz, como se se conhecessem a anos, ou como se uma história estivesse prestes a acontecer.
Eu observava tudo de um canto da sala, descalço, com uma paz nervosa vibrando nos dedos. Em algum momento, Aurora puxou a tiara da caixa e coroou a mãe com toda a solenidade do mundo. Isabella virou para mim com um sorriso lindo e iluminado no rosto e foi ali que eu entendi que a hora tinha chegado.

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