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A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar romance Capítulo 169

Lorenzo Vellardi

Os dias seguintes viraram um calendário de milagres miúdos. Não houve uma virada cinematográfica, foi devagar, um botão por vez sendo desabotoado. Isabella saiu da UTI e foi transferida para um apartamento, onde todos puderam visitá-la.

O verde dos olhos dela começou a ficar mais tempo aberto do que fechado, e a mão, antes tão imóvel, buscava a minha com precisão de quem reencontra paz. A obstetra passou todos os dias: e sempre nos tranquilizava dizendo: “O bebê está bem” e eu me agarrava a essa frase como se fosse trilho.

Eu me descobri um homem que espera.

Espera resultado, espera horário de visita, espera o “bom” de cada plantonista. Espera, mas não para. Eu lia em voz baixa o livro favorito da Aurora, contava o que tinha na janela, “hoje o céu está de um azul que nem os teus olhos alcançam” , encostava a cabeça na dela e falava com o pequeno, pedindo que aprendesse com a mãe a arte de resistir.

A cada dia, um passo.

Na manhã em que a médica mencionou “alta em breve”, eu segurei a palavra “breve” com as duas mãos, com medo que escorresse. Demorou ainda mais uns dias, entre exames, ajustes, certezas que a equipe precisava ter. Eu não reclamei de nenhum cuidado. Cada “não ainda” me parecia uma peça a mais que eles encaixavam para nos devolver uma vida inteira, e não uma fotografia.

Então, veio o dia.

A alta.

Isabella sentou-se na cama com a dignidade de quem volta do fundo do mar com uma pérola. A enfermeira trouxe a papelada, explicou medicações, sinais de alarme, repouso, consultas já marcadas, retorno para a fisioterapia. Falou com delicadeza de que o traumatismo craniano ainda poderia provocar, fadiga, fotossensibilidade, dias mais lentos e eu anotei tudo como se estudasse para uma prova que a vida marcou às pressas. A obstetra entrou com um sorriso difícil de disciplinar e um ultrassom impresso na mão: “aqui”, disse, apontando para um pontinho que eu já sabia de cor, “ está o seu filho, e ele cresce teimoso e forte”. Isabella chorou quieta e eu chorei feio.

Na saída, botaram-na na cadeira de rodas, protocolo que não discuti. Empurrei devagar, como quem leva um relicário. O corredor inteiro parecia largo e iluminado, ou talvez fosse só a forma como eu olhava.

Do lado de fora, o ar tinha cheiro de mundo novo. Isabella fechou os olhos e inspirou, como quem volta a habitar o próprio corpo. Eu encostei a testa na dela, e ficamos assim por um instante, sem pressa. Dr. Stephano nos acompanhou até a porta, ajeitou o casaco como se quisesse disfarçar a emoção e disse, baixinho: “Qualquer coisa, eu estou a um telefonema de distância.”

O caminho até em casa foi uma aula de gratidão. Eu dirigi devagar, com a mão esquerda no volante, e a direita entrelaçada na dela, como se a própria estrada pudesse tentar separá-las. Isabella olhava para fora, e cada árvore, cada fachada conhecida, cada padaria com o letreiro aceso parecia nos cumprimentar com um “bem-vindos”. Em alguns semáforos, ela fechava os olhos, não de cansaço, só para guardar a sensação. Eu quis contar tudo que tinha acontecido ali fora, mas decidi ficar calado. Às vezes, a melhor narrativa é o vento pela janela entreaberta.

Chegamos em casa, o portão já estava entreaberto, e antes mesmo de eu tocar a buzina, ouvi o barulho de passinhos apressados na calçada, uma risada alta e uma vozinha que fez tanto eu como Isabella sorrir.

— ELES CHEGARAM!

Parei o carro. Maria correu para abrir a porta do passageiro. Giulia apareceu na varanda, com as mãos no rosto. E Aurora, estava parada na soleira, segurando um cartaz com letras coloridas, adesivos de estrela e, no meio, em tinta caprichada:

“BEM-VINDA, MAMÃE QUERIDA”.

Minha mãe estava atrás de Aurora, com uma mão no ombro da neta e a outra escondendo o choro. Ao lado, duas presenças que fizeram os olhos da Isabella brilharem de um jeito só delas: a avó Flora, com seu xale de florzinhas e um sorriso grande de Beatriz, sua prima, que estava com o celular na mão e o coração nos olhos. E, um pouco atrás, como quem tenta se fazer discreto sem conseguir, o próprio Dr. Stephano, que tinha dito tchau no hospital, mas, pelo visto, nos seguiu de longe para receber Isabella.

— Doutor… obrigada.

— Não me chame de doutor agora. — ele respondeu, apertando a mão dela com delicadeza. — Aqui eu sou só o amigo que veio comer pão de queijo e assistir a um milagre de perto.

A sala virou celebração.

Aurora correu para pegar a “caixa de coragem” e a colocou sobre a mesa de centro, aberta, como um altar de coisas simples. O desenho das três mãos dadas com um coração pequeno na barriga, a tiara de estrelas, dois pãezinhos embrulhados, um pote de brigadeiro quase vazio. Isabella olhou para a caixa como quem revê um diário que não sabia estar escrevendo e riu, aquela risadinha que leva a mão à boca.

— Funcionou. — disse a Aurora. — Sua caixa funcionou.

— Foi a mamãe Letícia que ajudou. — a menina sussurrou, séria. —Em seguida ela se ajoelhou e beijou a barriga da mãe com ternura e sussurrou — seja bem vindo Benjamim.

Houve fotos, abraços, café, e risos contidos para não cansá-la. Flora contou histórias de quando Isabella era pequena e insistia em subir na goiabeira do quintal. Beatriz relembrou o dia em que as duas prometeram, ainda adolescentes, que seus filhos iriam namorar. Antonella, de vez em quando, sumia no corredor e voltava de olhos vermelhos, teve muito medo do passado se repetir e a dor voltar a tomar conta da vida do filho, mas tudo era um verdadeiro milagre.

Dr. Stephano, conversava animado com Beatriz, como se se conhecessem a anos, ou como se uma história estivesse prestes a acontecer.

Eu observava tudo de um canto da sala, descalço, com uma paz nervosa vibrando nos dedos. Em algum momento, Aurora puxou a tiara da caixa e coroou a mãe com toda a solenidade do mundo. Isabella virou para mim com um sorriso lindo e iluminado no rosto e foi ali que eu entendi que a hora tinha chegado.

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