A tarde corria mansa pela casa, aquela luz de fim de dia escorrendo pelas cortinas e desenhando faixas quentes no piso do quarto. Isabella estava recostada nos travesseiros, com um livro aberto no colo que era lido aos poucos, entre cochilos, risadas de Aurora pela casa e o vai-e-vem das mulheres da família na cozinha. Havia cheiro de bolo de laranja no ar, e o som distante de Dona Flora ensinando, pela terceira vez, o ponto certo do biscoito de polvilho.
O coração de Isabella, desde a alta, parecia bater com outra textura: mais calmo, porém mais atento aos pequenos milagres, uma manhã sem tontura, o riso de Lorenzo na porta, a mão de Aurora fazendo carinho “profissional” em sua testa.
A porta se abriu num impulso alegre, sem cerimônia.
— Prima! — Beatriz entrou como um sol que se recusa a esperar o convite. — Você está acordada? Posso falar com você um segundo? Um segundo bem grande, por favor!
Isabella ergueu os olhos e não conteve o sorriso. Beatriz tinha esse dom de espantar qualquer sombra do quarto. Os cabelos presos de qualquer jeito, a expressão acesa, as mãos inquietas que entregavam a ansiedade boa de quem traz notícia do tipo que não cabe no bolso.
— Entra, Bia — disse Isabella, fechando o livro sobre o peito. — Você já chegou falando “segundo bem grande”… Só pode ser coisa boa.
Beatriz veio até a cama, sentando-se na ponta com a energia mal contida de uma criança às vésperas de um passeio.
— Eu… — ela puxou ar, mordeu o lábio, e então soltou de uma vez: — Recebi um convite pra sair!
Isabella arregalou os olhos, e o sorriso se alargou de imediato, daqueles que contagiam.
— Foi o doutor Stephano? — perguntou, com a voz danada de quem já sabe a resposta.
Beatrice piscou, surpresa, quase escandalizada.
— Como você sabe?!
— Eu vi a maneira como ele olhou pra você ontem. — respondeu Isabella, inclinando um pouco o rosto, travessa. — Não era olhar de visita médica. Era olhar de quem achou um motivo novo pra ficar.
Beatriz cobriu a boca com as mãos, e em seguida pulou duas vezes, ali mesmo, na pontinha do colchão, tentando ser contida e falhando lindamente.
— Eu acho que estou apaixonada, Isa. — As palavras saíram finas, como se estivessem sendo sopradas de tão leves. — Sabe aquela coisa de filme? De ouvir a pessoa falando e parecer que tem música por trás? Ai, não ri de mim!
— Quem disse que eu vou rir? — Isabella esticou a mão e tocou de leve o rosto da prima, com os olhos brilhando. — Foi assim comigo e com o Lorenzo. Eu estou feliz por vocês dois. Por ele ter te visto. E por você ter deixado ser vista.
Beatriz arfou um risinho nervoso, como quem precisa soltar o excesso de alegria por qualquer via.
— Ele é tão… gentil. É carinhoso, romântico, atencioso, lindo… eu me sinto bem ao lado dele.
Beatrice suspirou, apertando de leve a colcha com as duas mãos.
— Também te amo.
Beatriz desapareceu pelo corredor, e o quarto retomou o seu silêncio morno. Isabella inclinou o rosto para a janela, permitiu-se um sorriso mais demorado e fechou os olhos por um instante, como quem arquiva a alegria de outra para usar nos dias cinzentos.
A maçaneta girou de novo, desta vez sem pressa. Lorenzo apareceu na soleira, tirando o paletó e apoiando no encosto da cadeira. O cansaço de quem trabalhou estava ali, sim, mas era o cansaço bom, o que vem acompanhado de alívio por voltar. Ele cruzou o quarto em passos curtos, com aquele cuidado reverente que só ele tinha, e sentou-se ao lado de Isabella, na beira da cama, deixando que o corpo encontrasse o dela como a peça que faltava no quebra-cabeça.
— Vi a Beatriz atravessando o corredor flutuando. — comentou, leve. — Acho que posso comemorar antecipado?
— Pode. — Isabella riu.
— Então o Stephano finalmente tomou coragem. — ele sorriu, cúmplice. — Era questão de tempo.
Por um instante, ficaram calados, com as mãos encontrando uma à outra no meio do lençol. Lorenzo estudou o rosto dela, as bochechas retomaram cor, os olhos nítidos, o cabelo caindo de um jeito novo sobre a testa. Passou o polegar na linha da maçã do rosto, devagar, e beijou a ponta dos dedos, como se assinasse um contrato silencioso de presença.
Os dois respiraram juntos. O dia, lá fora, já começava a se inclinar. Lorenzo então soltou a pergunta que vinha amadurecendo quieta dentro dele, firme e doce ao mesmo tempo, sem arestas:
— Isa… como foi o acidente?

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