O relógio marcava quase o fim da manhã quando Lorenzo encostou-se à mesa de reuniões de seu escritório, com a expressão fechada e o olhar fixo no amigo à sua frente. Marco estava sentado e girava lentamente a caneta entre os dedos, absorvendo cada palavra que Lorenzo acabava de dizer.
— Ela contou tudo… — Lorenzo falou, com a voz grave, firme. — Foi a Vereda. Isabella não quis dizer no começo, mas ontem admitiu. Ela a empurrou.
Marco inclinou-se para frente, o semblante mudando para algo mais sombrio.
— Aquela cobra… — murmurou, com o tom carregado de raiva. — Isso não pode ficar impune, Lorenzo.
— Não vai ficar. — Lorenzo respondeu. — Quero provas, quero que ela pague por cada segundo que a Isabella sofreu… e pelo risco que fez o meu filho correr.
Marco apoiou os cotovelos na mesa e encarou o amigo com o olhar decidido.
— Eu posso conseguir as imagens das câmeras da rua e das lojas próximas. Se ela esteve lá, vai aparecer.
Lorenzo assentiu, respirando fundo, mas sem esconder a tensão que lhe travava o maxilar.
— Preciso que isso seja feito rápido, Marco. Eu quero a Vereda na cadeia antes que ela sequer imagine que estamos agindo.
Marco segurou o olhar do amigo por um instante e então se levantou.
— Deixa comigo. Você sabe que, quando se trata de proteger a família, eu não meço esforços.
O silêncio que se seguiu foi denso, quebrado apenas pelo barulho distante de vozes no corredor. Lorenzo estava prestes a dizer algo quando a porta do escritório se abriu sem aviso e sua secretária apareceu, visivelmente desconfortável.
— Senhor Velardi… desculpe interromper, mas… a senhorita Vereda está aqui.
O nome ecoou no ar como um estilhaço. Marco ergueu as sobrancelhas, surpreso, enquanto Lorenzo se endireitou, e sua expressão endureceu. O ar no ambiente pareceu ficar mais pesado.
— Mande-a entrar. — Lorenzo disse por fim, com a voz tão fria que fez até Marco desviar o olhar.
A porta se abriu devagar, e Vereda entrou com passos calculados, como se cada movimento fosse ensaiado. Vestia um tailleur impecável, mas o olhar estava diferente. Havia algo de febril, intenso demais, como se ela tivesse finalmente decidido jogar todas as cartas na mesa.
Lorenzo permaneceu atrás da mesa, com o corpo rígido, enquanto Marco, de pé ao lado, cruzava os braços, observando em silêncio.
— Lorenzo… — ela começou, com a voz doce demais para a tensão que tomava conta da sala. — Precisamos conversar.
Ele não respondeu. Apenas indicou com o queixo a cadeira à frente, mas ela não sentou.
— Você acha que eu não sei? — continuou, avançando um passo. — Sei que Isabella falou. Sei que ela me acusa… Mas não é por isso que estou aqui.
Marco franziu o cenho, trocando um olhar rápido com Lorenzo, mas permaneceu em silêncio.
Vereda respirou fundo, e então a máscara começou a rachar.
— Eu sempre te amei, Lorenzo. — disse, com a voz carregada de emoção crua. — Desde antes de Letícia. Desde muito antes daquela… daquela mulher cruzar o seu caminho.
Os olhos dela brilhavam de uma mistura perigosa de paixão e ódio.
— Eu a odiei desde o primeiro dia. Leticia roubou você de mim. Era pra ser eu ao seu lado, não ela… Não aquela santinha de fachada. — cuspiu as palavras como veneno. — Você não fazia ideia do quanto eu sofri, do quanto eu esperei…
Marco piscou, surpreso com a intensidade da confissão, mas Lorenzo continuou imóvel, apenas observando.
— Eu fiz tudo por você. Tudo. Até o que você nunca saberá. — a voz dela tremeu, e de repente o tom mudou. A postura altiva cedeu lugar a algo quase implorante. — Eu te imploro, Lorenzo… Não me vire as costas. Eu não sou sua inimiga. Eu te amo, sempre amei. Não suportei ver você com outra, e… sim, eu errei. Mas foi porque não aguentava mais ver você dar o que era meu para outra pessoa.
Ela deu mais um passo, as lágrimas finalmente caem de seus olhos descompassados e sua respiração entrecortada.
— Eu faria qualquer coisa… qualquer coisa para voltar no tempo. Me deixa reparar. Me deixa provar que… que eu sou a mulher que você deveria ter escolhido.
O silêncio pesou como chumbo. Marco mantinha o olhar fixo nela, tentando entender se aquilo era delírio, teatro ou loucura pura.
Vereda se aproximou mais, estendendo as mãos na direção de Lorenzo, como se quisesse tocá-lo. Ele, num movimento rápido, segurou os dois braços dela com firmeza. Não foi violento, mas o suficiente para que ela entendesse que não iria mais avançar.
Ela lançou um último olhar para ele, depois para Marco, e saiu batendo os saltos pelo piso de mármore do corredor. O barulho seco da porta fechando ecoou pelo escritório.
Por alguns segundos, o silêncio reinou. Marco quebrou-o primeiro, respirando fundo.
— Essa mulher é completamente desequilibrada, Lorenzo. E agora não resta dúvida.
— Exato. — Lorenzo passou a mão pelo rosto, como se quisesse limpar qualquer vestígio daquela presença dali. — Quero as imagens. Quero depoimentos. Quero tudo que possa colocá-la atrás das grades.
Marco assentiu, já sacando o celular do bolso.
— Eu tenho um contato na central de monitoramento da rua próxima ao hospital. Vou falar com ele agora. Também posso acionar o pessoal da segurança do prédio onde ela esteve naquele dia.
Lorenzo se aproximou da mesa, apoiando as mãos no tampo de madeira maciça.
— Faça isso. E faça rápido. Quanto antes, melhor. Não vou dar tempo para que ela invente alguma jogada.
Marco já digitava, com o olhar determinado.
— Pode deixar. Até o final do dia eu te trago um dossiê com tudo. E se precisar, também conheço um delegado que não vai hesitar em abrir o inquérito.
Lorenzo assentiu, respirando fundo.
— Obrigado, Marco. Isso não é apenas sobre justiça… é sobre proteger a minha família.
O amigo levantou o olhar, sério.
— E você sabe que eu não vou descansar até garantir isso.
Lorenzo ficou alguns segundos encarando a porta por onde Vereda havia saído, como se pudesse sentir ainda a presença dela pairando no ar. Mas, no fundo, sabia que aquela cena havia marcado o início do fim para ela.

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