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A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar romance Capítulo 186

O domingo amanheceu com aquele cheiro de pão assando e riso de casa cheia. Do jardim, o vento trazia o perfume das jabuticabeiras, e Biscoito corria em círculos, latindo para os passarinhos como se tivesse um emprego importantíssimo. Na cozinha, Dona Flora ajudava Maria animada a preparar o almoço de família e Antonella também dividia as tarefas com alegria.

Isabella, com o ventre redondo de Benjamin, mexia devagar um creme de milho, e Lorenzo organizava, metódico, duas travessas de salada como se estivesse alinhando peças de um tabuleiro.

— Amor, não é cirurgia. — Isabella riu, vendo-o ajustar pela terceira vez a posição dos tomates cereja. — Se um fugir do lugar, ninguém morre.

— Não começa, Isa. — Lorenzo respondeu, fingindo carranca. — Hoje é o primeiro almoço com o… — fez uma pausa, procurando a palavra exata, como quem sabe que a palavra certa muda o clima — com o namorado da Beatriz.

Dona Flora ergueu as sobrancelhas, divertida.

— Namorado, é? Então é sério.

— Sério, vó. — Isabella respondeu com um brilho de entusiasmo manso. — E ela está feliz. O que, por si só, já é bonito.

Aurora entrou na cozinha como um furacão: vestido amarelo, tiara de flor, Biscoito a tiracolo, os cachos pulando nos ombros.

— Bisa, o doutor Stefano é legal, e gosta da tia Bia. Eu já fiz um cartaz de boas vindas a família pra ele.

— Um cartaz? — Lorenzo engasgou com o café. — Não exagera, filha.

— Papai, boas-vindas nunca é exagero. — disse Aurora, com a solenidade de quem já compreende a vida. — A mamãe me ensinou que sempre precisamos tratar os amigos com carinho. Não é mamãe?

Isabella sorriu orgulhosa. Antonella abanou o ar com a colher de pau:

— Deixa a menina, Lorenzo. Casa que recebe bem planta sorte.

Beatriz chegou primeiro, soprada por um vento de alegria que entrou junto com ela pela porta. Veio com um vestido de linho azul , abraçou Isabella com cuidado para não apertar Benjamin e, de quebra, beijou Aurora no topo da cabeça.

— Estou tão nervosa. — sussurrou para a prima, numa confidência que mesmo os azulejos pareceram escutar. — Parece que é o meu primeiro namorado.

— O primeiro sério, com toda certeza. — Isabella apertou a mão da prima, feliz. —Deixa a ponte acontecer, lembra?

Beatriz sorriu lembrando do dia em que aconselhou a prima a deixar as coisas caminharem quando Isabella confidenciou que estava apaixonada por Lorenzo, pela primeira vez.

— É tia Bia, o doutor Stefano gosta de você, eu tenho um radar que me diz as coisas. — disse Aurora confiante.

— Ah, tem? — Lorenzo inclinou a cabeça, brincando de severo. — Então o radar está temporariamente fora de serviço. Só volta a funcionar quando você tiver… quarenta.

— Papai! — Aurora protestou, indignada, mas não insistiu. Preferiu pegar Biscoito no colo e cochichar na orelha do cão: — Quarenta é quando a gente vira avó, né? — Biscoito respondeu com um latido que, para ela, soou como concordância.

Antes que a discussão escalasse, a campainha tocou. As vozes baixaram, o coração de Beatriz deu um salto, e Lorenzo, em reflexo, secou as mãos no pano de prato como quem vai abrir a porta para a própria responsabilidade.

— Eu abro! — Aurora disparou pelo corredor, Biscoito atrás. Abriu a porta num tranco entusiasmado. — Oi! Doutor Stefano!

Do outro lado, Stefano sorriu, um sorriso meio nervoso, meio iluminado. Estava de camisa clara, mangas dobradas, um paletó pendurado no braço, e segurava duas coisas: um buquê de girassóis e uma caixa delicada de torta de limão.

— Ola Aurora. —cumprimentou, abaixando-se à altura de Aurora. — Você está cada dia mais linda.

Au Au!

Do outro lado do jardim, Beatriz espiava discretamente pela janela da sala. O coração dela batia descompassado desde o momento em que ouviu a campainha. As mãos suadas e o frio na barriga a denunciavam, e o vestido azul-claro, escolhido depois de quase duas horas de indecisão, parecia agora um detalhe pequeno diante da forma como os olhos de Stefano brilhavam.

Ele estava de camisa clara, mangas dobradas até os cotovelos, deixando parte dos antebraços à mostra. O paletó pendia despreocupadamente no braço, mas a postura dele continuava impecável, como sempre. Carregava um buquê de girassóis, vibrantes como um pedacinho de sol, e uma caixa delicada de torta de limão nas mãos.

O coração de Beatriz quase tropeçou.

Girassóis... Ele havia lembrado que, uma vez, durante uma conversa rápida no casamento de Isabella, que ela havia dito que flores amarelas sempre a deixavam feliz.

Beatriz sentiu o rosto queimar, mas ergueu o olhar, encontrando os olhos castanhos dele. Por um instante, o mundo pareceu desacelerar. Stefano estendeu o buquê com um sorriso meio nervoso, meio iluminado.

— Olá, Bia. — a voz dele saiu suave, grave na medida certa. — Trouxe girassóis… achei que combinavam com você.

Beatriz pegou as flores com as mãos ainda trêmulas, mordendo o lábio inferior para conter um sorriso bobo que ameaçava escapar. Aurora, observando tudo, sussurrou para Biscoito:

— Eles vão se casar. Eu tenho certeza.

O cão latiu baixinho, como quem concordava.

Stefano pigarreou, ajeitou o paletó sobre o braço e olhou para Aurora novamente, com um carinho sincero.

— E você… — disse, inclinando-se um pouco para frente — está cada dia mais linda, sabia?

Aurora soltou um risinho tímido, escondendo o rosto atrás do cachorro.

— Obrigada, tio Stefano. Você também tá bonito… mas a titia demorou muito mais pra se arrumar.

Beatriz levou a mão à testa, envergonhada, enquanto Stefano segurava uma risada. Ele olhou para Aurora e sussurrou de volta:

— Ainda bem que ela demorou… valeu cada segundo.

Beatriz, mesmo sem ouvir, sentiu o calor subir pelas bochechas. Aurora piscou cúmplice para o médico, orgulhosa de ter virado a confidente oficial da história.

E, naquele instante, mesmo antes de Lorenzo perceber, Biscoito aprovar de vez e Isabella preparar outro almoço especial, o clima entre Stefano, Beatriz e a pequena Aurora já carregava o começo de algo maior.

Um segredo silencioso, doce, que até as paredes da casa pareciam guardar.

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