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A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar romance Capítulo 21

O som de uma risada infantil cortou o ar morno da tarde como um sopro de vida esquecido.

Sete Meses…

Foi esse o tempo necessário para que o silêncio sepulcral da mansão Vellardi começasse a ceder espaço a algo que ninguém ousava nomear. Felicidade, esperança, ou simplesmente o eco do que uma vez existiu naquela casa antes da tragédia.

Aurora havia voltado a sorrir. E Isabela era o centro desse novo universo que florescia.

A babá, a jovem de olhos azuis e traços doces, agora caminhava pelo jardim como se o conhecesse desde sempre. A menina a seguia como uma sombra luminosa, rindo, perguntando, confiando. Era um vínculo construído com delicadeza, dia após dia, sem forçar, sem invadir. E talvez por isso, tão verdadeiro.

Naquela tarde, o céu estava limpo, um azul profundo como uma pintura recém-finalizada. O perfume de lavanda flutuava no ar, misturado ao leve zumbido de abelhas e ao som das folhas farfalhando sob a brisa.

Aurora desenhava sobre a mesa de ferro branco. Usava um vestido florido de fundo branco, com pequenas margaridas bordadas, e o laço de fita amarela na cintura deixava-a ainda mais parecida com um anjo de cabelos dourados.

Isabella, estava sentada na grama ao lado, brincava de inventar histórias sobre borboletas que viajavam o mundo levando segredos de uma flor à outra.

Antonella as observava da espreguiçadeira próxima, com um sorriso nos lábios e os olhos levemente marejados. Havia muito tempo que não via a neta tão… viva.

— Ela voltou a sonhar — comentou, com a voz baixa, quase reverente.

Isabella ergueu os olhos, surpresa pela frase, e os encontrou com os da matriarca.

— Aurora?

— Sim. Ela me conta todos os dias. Sonha com castelos de flores, com lugares onde a mamãe dela ainda existe em forma de estrela… — Antonella apertou os dedos entrelaçados no colo. — E, principalmente, sonha com você.

Isabela baixou os olhos, tocada.

— Ela só precisava de alguém que estivesse de verdade com ela. Não só no mesmo espaço… mas no mesmo silêncio.

— Não apenas alguém que a ouvisse, minha querida… alguém que a enxergasse. — Antonella disse com firmeza. — E você vê. Aurora é feita de pequenos silêncios e grandes vazios. Mas você entra neles como se fossem seus.

A jovem hesitou, depois assentiu, com os olhos brilhando.

— Eu fui uma criança como ela, dona Antonella. Silenciosa, cheia de perguntas que não sabia fazer. Perdi minha mãe quando tinha nove anos, meu pai não soube lidar com a perda do seu único e verdadeiro amor e meses depois, tirou a própria vida. — Antonella olhava para Isabella com ternura. — Não tive alguém que estivesse ao meu lado e segurasse minha mão, dizendo que tudo iria ficar bem, tive que lidar com a dor da pior maneira.

— Sinto muito minha querida…

Isabella desviou os olhos para a mais velha e apertou a sua mão com firmeza e disse:

— Quando ela me olha… às vezes, sinto que me reconheço ali.

A senhora se inclinou para frente, mais interessada do que nunca.

— Talvez seja por isso que a conexão de vocês é tão forte. Ela sabe que você a entende.

Antes que Isabella respondesse, Aurora correu até elas com um desenho nas mãos.

— Olha! É a gente no jardim!

Quatro figuras coloridas estavam no papel: uma de vestido florido, outra de cabelo preso, uma que dançava de cabelos loiros e uma terceira, maior, de terno azul.

— Esse sou eu? — Antonella perguntou, apontando.

— Não, vovó! Esse é o papai! — Aurora respondeu sorrindo. — E essa aqui é a Isa!

Isabella riu sem jeito. Antonella segurou a folha com cuidado, como se fosse uma relíquia. Mas o momento foi interrompido pelo som suave da porta de vidro se abrindo.

Isabella respirou fundo e cruzou os braços.

— Eu sei exatamente qual é o meu lugar, senhor. E também sei que, nos últimos meses, ninguém além de mim tem estado ao lado da sua filha quando ela acorda assustada à noite. Quando ela se senta no chão e chora em silêncio sem saber por quê. Quando ela sonha… e precisa que alguém escute.

— Não estou discutindo sua função. Estou apenas lembrando que a senhorita é temporária.

— Lorenzo, não seja rude! — retrucou Antonella se levantando e encarando o filho irritada.

— Estou apenas deixando as coisas claras. Ela é paga para cuidar da minha filha, não para entrar na vida dela e causar bagunça.

Aquilo doeu.

Ela não respondeu de imediato. O olhar dela, até então firme, vacilou por um segundo. Isabella respirou fundo e em seguida, ergueu o queixo e retrucou:

— Então me diga, senhor Vellardi… quem será permanente na vida de Aurora, se nem o próprio pai permanece?

Lorenzo a encarou com os olhos escurecendo. Antonella se aproximou, mas não interferiu e Isabella se recompôs com dignidade. Não estava ali para brigar, mas também não aceitaria ser reduzida.

— Decida o que o senhor quer na vida da sua filha e depois me comunique. Agora, com sua licença. — disse ela, recuando com elegância. — Aurora ainda quer me mostrar o castelo que desenhou.

E sem esperar resposta, voltou para a menina.

Lorenzo ficou imóvel.

Observava de longe a filha correndo pela grama com a babá atrás dela, rindo como se o mundo fosse simples. Mas ele sabia que não era. Sabia que aquela mulher, com seus sorrisos sinceros e coragem irritante, estava se enraizando onde ele havia jurado que ninguém mais pisaria. E ainda assim… ele não conseguia impedi-la. Por isso, fazia o que sabia fazer melhor.

Continuava sendo frio. Porque o medo de perder de novo… ainda era maior do que qualquer outra coisa.

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