Lorenzo Vellardi
A porta se fechou com um estrondo atrás de mim. Eu nem me dei ao trabalho de olhar se alguém escutou. A casa inteira podia desabar agora que eu não me moveria daqui. Meus punhos estavam cerrados, o peito arfava como se eu tivesse corrido quilômetros, e o gosto amargo na boca era tudo o que restava da minha tentativa de fingir que ainda controlava alguma coisa.
Ela me desarma.
Maldição, ela me desarma.
Joguei o copo de uísque com tanta força sobre a cômoda que parte do líquido espirrou sobre a madeira. Fiquei ali, encarando o reflexo distorcido no espelho em frente, tentando encontrar algum traço de sanidade no homem que me encarava de volta. Não encontrei. O que vi foi um covarde. Um idiota que gritou com uma garota por algo que, no fundo, sabia que era sua própria culpa.
Isabella.
Ela se ajoelhou para recolher os cacos do copo e a alça da camisola escorregou. Deus, como eu odiei ter visto aquilo. Como odiei o fato de meu corpo ter reagido antes mesmo que minha mente processasse. O seio delineado, os mamilos enrijecidos e rosados, a pele sensível tão próxima da minha… era como jogar gasolina no que sobrou de mim.
E quando ela me enfrentou, com aquele queixo erguido, com aquela coragem, ela, uma menina de dezenove anos, foi como levar um soco no estômago. Porque ninguém me olhava daquele jeito desde…
Letícia…
Engoli o nó que subiu na garganta com violência. Três anos, mil e noventa e cinco dias, vinte seis mil, duzentos e noventa e oito horas.
Desde a noite em que a perdi.
Desde que tudo o que eu era se despedaçou junto com o vidro do para-brisa.
Lembranças…
A chuva caía forte.
Tão forte que os limpadores mal conseguiam vencer a velocidade das gotas. Eu segurava o volante com força, e discutia com ela, como sempre. Eram sempre as mesmas coisas, minha ausência em casa, o excesso do trabalho.
— Você não precisa trabalhar tanto Lorenzo. — disse, irritada. — É dono de sua empresa e bilionário, deveria dedicar mais tempo para mim e para Aurora.
— Você não entende Letícia, tudo o que faço é pensando no seu futuro e no da nossa filha.
— Futuro? De que adianta pensar num futuro se não consegue viver com sua família o presente Lorenzo?
— Não seja dramática, Leticia.
— Dramática? Lorenzo, nossa filha está com três anos, ela sente falta do pai, estou cansada de inventar desculpas para ela não ficar esperando o pai a noite inteira para colocá-la para dormir. E eu também tenho saudades do meu marido.
— Eu estou aqui, Letícia. Sempre estive.
— Será? Porque não sinto você comigo há muito tempo.
— Pelo amor de Deus!
— Você deixou de me amar, é isso?
— Enlouqueceu? Você e a Aurora são tudo para mim.
— Então prove! Eu posso muito bem…
Um farol. Um clarão. Um impacto.
O som do metal retorcido ainda ecoava na minha mente às vezes, nos piores momentos. Quando o carro parou, ela não se mexia. Seu corpo caído sobre o cinto de segurança, o sangue escorrendo lentamente pela lateral da cabeça. Seus olhos… estavam abertos, mas não viam mais nada.
Eu gritei.
Deus sabe que eu gritei.
Fechei os olhos e deixei o corpo cair sobre a cama.
O colchão afundou sob meu peso. O lençol ainda trazia o cheiro fraco de Letícia. Sempre borrifava o seu perfume sobre meu travesseiro quando meu peito ardia de saudade. É doentio, eu sei, mas era como se parte de mim ainda achasse que Letícia voltaria, que abriria a porta, reclamando da bagunça, que deitaria ao meu lado e me contaria sobre o novo livro que estava lendo.
Mas ela não volta, nunca vai voltar.
E agora… Isabella entra sorrateira pelos corredores, como se o mundo ainda fosse um lugar leve.
Ela não sabe. Ela não entende. E por isso… ela é perigosa.
Mais perigosa do que qualquer mulher que já conheci. Porque ela pode me fazer querer viver de novo. E eu não estou pronto para isso e sinceramente, não sei se algum dia estarei. Mas mesmo assim… Mesmo com o peito rasgado, mesmo com o coração enterrado em concreto… se eu fechar os olhos agora, sei exatamente o que vou ver.
Os cabelos soltos caindo pelos ombros.
A pele macia escapando pela alça da camisola.
O jeito que ela disse meu nome, com a voz baixa e os olhos verdes faiscando.
“Desculpe, senhor.”
Como se eu ainda fosse digno de qualquer respeito. Como se eu ainda fosse um homem.
A madrugada passou devagar. Permaneci ali, imóvel, encarando o teto. O quarto silencioso, o copo sobre a cômoda intacto. Nenhuma bebida no mundo curaria isso. Nenhuma mulher pagaria o que vi hoje.
Ela não deveria ser real.
Mas é.
E agora… ou eu mantenho distância, ou me afogo nela. O problema de um homem que passa tempo demais no escuro… é que a luz o cega. E talvez… Isabella seja a luz que eu não mereço. Mas que meu corpo inteiro já suplica. E isso, por si só, é o inferno mais doce que já experimentei.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar