Vereda Catani
As pessoas gostam de repetir que o tempo cura tudo. Que as dores se apagam, que o luto cede, que o amor vira lembrança doce.
Besteira.
O amor que não foi vivido, que ficou preso entre os dentes por orgulho ou covardia, esse não passa. Ele fermenta. Vira vinagre, depois veneno. E, no meu caso, virou obsessão.
Eu sei a verdade.
Eu carrego a verdade. Nunca me esqueci, nunca perdoei. E, acima de tudo…
Nunca. Desisti.
Lorenzo Vellardi.
Apenas pronunciar esse nome em silêncio me causa um arrepio no corpo inteiro. Não aquele tipo de arrepio encantado, romântico… não. É o tipo de arrepio que antecede um ataque. O tipo que me invade quando lembro de tudo o que me foi tirado, ou melhor, de tudo o que nunca me foi dado. Mas não é amor o que eu sinto. Amor é pequeno é pra meninas que escrevem em diários com caneta cor-de-rosa.
O que eu sinto por Lorenzo é mais profundo, mais escuro.
É necessidade.
É fome.
É obsessão.
Assim que deixei a mansão, desci os degraus como quem caminha para um campo de guerra. Meus saltos batiam no mármore como uma marcha. A máscara ainda estava colada ao rosto, aquele sorrisinho educado, impecável, mas por dentro eu estava em brasa. Entrei no carro. Mas não liguei o motor.
Fiquei ali, imóvel, com os dedos cerrados no volante, com os olhos fixos no nada, sentindo a cena se repetir na minha cabeça como um castigo:
Lorenzo… defendendo a babá.
A voz dele ecoa ainda: firme, fria, minha. E mesmo assim, ele a defendeu. Aquela menina sem presença. Aquela coisa frágil de olhos assustados. Isabella Fernandes.
"A babá."
Quase ri. Mas foi um riso amargo. Como é que uma criatura como ela conseguiu isso?
Uma garota com cara de colegial, roupas simples, olhos grandes e assustados… que parecia prestes a desmaiar só de encará-lo. E, ainda assim, foi ela quem ele protegeu. Ela quem atraiu sua atenção. Ela, e não eu.
Eu, que estive lá quando Letícia morreu. Eu, que fui o apoio da família. Que carreguei a dor com ele. Que enxuguei lágrimas que ele jamais deixaria ninguém ver.
Eu, que estava pronta desde sempre.
Mas nunca fui a escolhida. Nem quando ela morreu. Nem depois de todos esses anos em que fui tudo, menos o que eu merecia ser.
Fechei a porta do carro com mais força do que deveria. Liguei o motor, mas fiquei ali parada, com as mãos no volante e os olhos perdidos no vazio.
Desde o primeiro momento em que o vi, ainda adolescente, entendi que aquele era o tipo de homem que marcava a alma de uma mulher. Alto, frio, quase cruel. Mas com uma intensidade que feria. Era um homem que se fazia amar mesmo sem fazer esforço. Porque ele simplesmente… era.
E eu… fui me envenenando.
Assistindo, Letícia rir com ele. Ouvi-la falar sobre seus sonhos. Suportando os almoços em família, os jantares, as conversas sobre casamento.
Até que chegou o dia da formatura.
Aquela maldita noite.
Ah, como eu me preparei para aquele momento. O vestido azul-cobalto que moldava o meu corpo como uma segunda pele. O salto alto, o cabelo preso em um coque baixo. Estava linda. Letícia até disse que eu parecia uma princesa.
E eu a odiei por isso.
Sim, Letícia era minha melhor amiga… e o meu maior fardo.
Ela era perfeita. A herdeira doce, recatada, admirada por todos. A mulher que Lorenzo amava. Mesmo quando fingia que não. Mesmo quando dizia que ela era apenas a irmã da melhor amiga. Mesmo quando me beijou na festa da empresa meses antes. Mesmo quando me chamou de linda no jardim da casa dos pais dele.
Eu achei que ele finalmente fosse enxergar. Achei que naquela noite ele diria tudo.
Lembro como se fosse agora…
O salão estava cheio. Todos brindando, dançando, celebrando. E eu, com o coração batendo como louco, esperando por ele no jardim iluminado por lanternas amarelas.
Ele apareceu. Perfeito. Impecável naquele terno preto que fazia seus olhos azuis brilharem ainda mais. Sorria. Mas havia algo diferente naquele sorriso.
— Está me esperando? — ele perguntou, com a voz rouca, como sempre.
— Claro — eu sorri, sedutora. — Achei que você quisesse um momento longe da bagunça.
— Quero sim… — ele disse, se aproximando.
Meu coração acelerou. Aquilo era real. Ele ia me escolher.
Eu sei reconhecer uma ameaça.
E Isabela é uma.
Não sei o que ela fez. Não sei se o seduziu com aquela cara de santa ou se anda desfilando inocência para mexer com o instinto protetor dele. Mas o que sei… é que Lorenzo não reagiria como reagiu se ela fosse apenas mais uma funcionária.
Ele a defendeu. E isso… nunca aconteceu comigo. Nem uma vez.
Respirei fundo, sentindo o batom nos lábios se tornar amargo. A imagem dela, sentada ao lado da filha dele, sorrindo, contando historinhas de dragões… parecia uma piada de mau gosto. E o pior?
Aurora adora aquela garota. Mais um ponto para ela, mais uma ameaça.
Mas Lorenzo é meu.
Sempre foi.
E não será agora, com essa menininha de rosto delicado e modos suaves, que eu vou perder a guerra.
Porque eu não sou Isabella.
Eu sou Vereda Cattani.
A mulher que esteve ali desde o começo. A mulher que conhece cada cicatriz naquele peito. A que chorou com ele. A que o viu sangrar e sobreviveu ao luto ao lado dele.
Aquela garota pode ter a juventude, mas eu tenho a história. E posso muito bem transformá-la em tragédia, se necessário.
Apertei os olhos e encostei a cabeça no banco do carro. A lembrança da noite da formatura ainda pulsa, mas agora, misturada ao ódio.
Um ódio doce, lento, venenoso.
E eu não perco.
Eu não cedo.
E se for preciso… eu destruo.
Porque Lorenzo Vellardi será meu. Nem que, pra isso, eu precise atravessar todos os limites da sanidade. E sinceramente?
Estou pronta.

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