Lorenzo Velardi
O céu sobre Boston ainda carregava as últimas sombras do amanhecer quando estacionei meu carro na vaga privativa da Holding Vellardi & Renzi. Eram 07:42 da manhã. Um horário incomum até para mim, mas o sangue fervendo nas veias, o gosto amargo da raiva, a inquietação por dentro… havia me expulsado da cama.
Vereda.
Maldita seja.
Sempre foi atrevida, sempre andou no limite entre a amizade e algo mais. Mas o que ela fez hoje pela manhã, passar dos limites com Isabella, foi baixo até para os padrões dela. E eu… eu ainda podia sentir o gosto da fúria na garganta, o nó preso no estômago desde o momento em que vi Isabella cabisbaixa, os olhos marejados, depois de ouvir aquelas palavras venenosas.
Saí do carro com os ombros duros, os passos pesados. Vestia um terno cinza escuro, risca de giz, com o colarinho ainda desabotoado e a gravata solta como se já estivesse cansado do dia antes mesmo dele começar. O cabelo ainda úmido do banho matinal estava penteado às pressas, mas nada disfarçava o semblante fechado, sombrio, impaciente.
A secretária da recepção tentou esboçar um “bom dia” tímido, mas minha expressão provavelmente a fez engolir metade da frase.
No elevador, o silêncio parecia mais ensurdecedor do que qualquer barulho. Meus punhos cerrados, a mandíbula travada.
Assim que cheguei ao último andar, Ana, minha assistente pessoal, me esperava com uma pasta nas mãos e aquele olhar de quem já sabia que o dia não seria fácil.
— Já deixei o café na sua mesa, senhor Velardi. Forte. Com duas doses de espresso.
Assenti sem palavras. Caminhei até minha sala decidido a me enterrar no trabalho… até ouvir a voz dele.
— Mas que bicho te mordeu, Lorenzo? — Marco apareceu encostado no batente da porta, com uma caneca de café nas mãos e aquele sorrisinho irritante no rosto. — Brigou com o espelho?
Olhei pra ele devagar, arqueando uma sobrancelha, e respondi com sarcasmo ácido:
— Você anda assistindo novela mexicana demais, Marco. Vai acabar chorando por causa de um bebê sequestrado e um irmão gêmeo perdido.
Ele arqueou uma sobrancelha e soltou uma risada baixa, colocando a caneca sobre a estante ao lado da porta.
— Bom dia pra você também, seu mal-humorado. — disse, ainda divertido, mas o olhar já estava mais atento. — Entendi. Hoje é dia de cão.
Não respondi.
Entrei na sala, larguei a pasta sobre a mesa e fui direto ao café. Dei um gole grande, sentindo o gosto amargo cortar a garganta. Marco entrou sem ser convidado, como sempre e se jogou na poltrona em frente à minha mesa, me observando como se tentasse decifrar uma equação impossível.
— Vai me dizer o que porra aconteceu?
Virei para ele devagar, apertando os olhos com um sarcasmo carregado na voz:
— A língua afiada de certas mulheres que ainda acham que podem invadir minha vida como se tivessem algum direito sobre ela.
— Vereda? — perguntou, num tom mais baixo.
Minha mandíbula se retesou. Não disse nada de imediato. Não respondi.
Entrei na sala, larguei a pasta sobre a mesa de madeira maciça e dei um longo gole no café. Ele entrou logo atrás, se encostando no batente da porta, me observando em silêncio. O olhar dele era clínico, atento, como se tentasse decifrar as rachaduras que eu me esforçava tanto em esconder.
— Cara, por que você ainda mantém essa mulher por perto? — perguntou, enfim, em tom mais baixo.
— Porque ela sempre esteve ali. Era amiga da Letícia, era próxima da família, ajudou nos momentos difíceis… — passei a mão pelo rosto, cansado. — Mas até a lealdade tem limites. E hoje ela passou do ponto.
— Não estou dizendo nada. Só observando. — respondeu ele, se levantando com um sorriso esperto. — E pra sua informação, eu só assisto novelas aos domingos com a minha esposa. — Brincou, erguendo as mãos como se se rendesse. — Mas com esse drama todo, talvez você devesse estrelar uma.
— Marco… — adverti num tom firme, mas ele deu uma piscadinha e desviou o assunto.
— Cristina disse que vai visitar a Aurora esse fim de semana.
Soltei o ar com mais calma.
— Aurora vai adorar. Ela vive perguntando quando vai ver a madrinha de novo.
— Pois é. — Marco deu dois tapinhas no ombro do meu terno ao passar por mim. — Então faz um favor, Lorenzo. Quando olhar pra Isabella da próxima vez… tenta não parecer que tá pegando fogo por dentro. Tá ficando difícil fingir que ninguém percebe.
— Vai trabalhar, Marco.
— Sim, chefe mal-humorado. Mas pensa no que eu disse.
Ele saiu da sala com aquele sorriso irritantemente tranquilo, me deixando sozinho com o gosto amargo da verdade presa na garganta.
Isabella.
Droga.
Ela mexia comigo de um jeito que nem eu sabia explicar. E pior: eu não queria que parasse.
Mas também não sabia como começar. Nem se tinha esse direito.

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