Quando a porta pesada da biblioteca se fechou atrás de Lorenzo, o silêncio pareceu engolir tudo ao redor. O som abafado do trinco ecoou como um estalo seco, e por um instante, Isabella apenas ficou ali, imóvel, como se o corpo não tivesse conseguido acompanhar a rapidez com que tudo aconteceu.
O ar continuava impregnado do perfume discreto dele. Madeira escura, couro, e algo que era só dele. O homem que a confundia, a puxava e empurrava com a mesma intensidade, que a tocava como se precisasse dela e fugia como se fosse perigoso sentir.
Ela fechou os olhos e inspirou devagar, tentando acalmar os batimentos acelerados no peito. Ainda podia sentir o toque das mãos dele em sua cintura, firme, protetor… quente. Ainda podia sentir a respiração dele tão próxima de sua pele que parecia que o tempo havia parado por um segundo, só um segundo, em que ela ousou acreditar que havia algo ali. Algo além da tensão. Algo real.
Mas não havia. Não de verdade.
Isabella se aproximou da janela aberta, precisando de ar, de espaço e de distância. As cortinas brancas se moviam com a brisa leve da tarde, e as folhas das árvores dançavam sob a luz dourada do entardecer. Era uma cena bonita, tranquila. Mas dentro dela, tudo era caos.
Como ele podia mexer tanto com ela e, ao mesmo tempo, deixá-la tão sozinha?
Como podia olhá-la daquele jeito, como se enxergasse tudo o que ela escondia do mundo e depois virar as costas como se ela fosse invisível?
Isabella apoiou as mãos no parapeito da janela e inclinou-se para frente, deixando que o vento bagunçasse seus cabelos. Tentou respirar fundo, mas era como se algo estivesse apertando o peito por dentro.
Isso não pode continuar.
Pensou nisso com uma clareza cortante. Como se aquelas palavras tivessem finalmente atravessado a névoa de confusão que vinha carregando nos últimos dias, semanas, meses.
Isso não pode continuar.
Ela não podia mais viver entre migalhas. Migalhas de atenção. Migalhas de afeto. Migalhas de algo que talvez nem fosse amor, talvez fosse apenas desejo disfarçado, carência camuflada, necessidade momentânea.
Mas ela queria mais. Merecia mais.
Não podia se permitir amar alguém que a tratava como uma ameaça, como uma tentação a ser evitada a todo custo. Alguém que, no fundo, talvez nunca tivesse deixado de amar a própria esposa falecida… ou que simplesmente não quisesse mais amar ninguém.
As palavras que ele dissera ainda ecoavam em sua cabeça. “Isso não deveria ter acontecido.” Como se ela fosse um erro. Como se aquele instante tivesse sido uma falha, um desvio. Algo vergonhoso. Como se ela fosse, novamente, a mulher que alguém deseja em silêncio… mas esconde à luz do dia.
Ela não conhecia bem aquela sensação.
Na verdade, tudo aquilo, o que sentia, o que doía, o que pulsava dentro de si, era desconhecido. Um território novo, vasto e imprevisível, como um mar que ela nunca ousara atravessar. Até Lorenzo.
Nunca tinha amado ninguém antes dele. Nunca. E não por falta de oportunidade, mas por ausência de coragem… e de entrega.
Isabella era virgem, não só de corpo, mas de história. Nunca havia se deixado tocar, nem fisicamente, nem emocionalmente. Nunca tinha se relacionado com nenhum outro homem antes, não por falta de oportunidade, mas porque nenhum deles passou da superfície, nenhum fez morada no seu coração. Ela dizia não com facilidade. Não aos convites, não às intenções, não aos flertes.
E por muito tempo, achou que o problema era ela.
Achava que havia algo de errado em não se deixar envolver como as outras garotas, em não suspirar ansiando por um beijo. Com o tempo, passou a se contentar com livros, sonhos e o silêncio seguro das próprias escolhas. Era mais fácil assim, mais seguro.
Mas então… Lorenzo.
Ele não a cortejou. Não a olhou como quem escolhe. Ao contrário, quase sempre a evitava, se protegia dela como se fosse perigosa. E ainda assim… algo nele acendeu o que ela nem sabia que existia dentro de si.
O coração batia forte, mas não era amor o que ela sentia naquele momento. Era dor, frustração, uma raiva triste, silenciosa, que não encontrava espaço para ser dita em voz alta.
“Cuidado com a forma como me olha.”
Ela riu sozinha, amarga. Como se fosse culpa dela. Como se o olhar dela fosse uma ameaça, e não o reflexo do que ele mesmo provocava.
Hipócrita, pensou, sem maldade, mas com amargura. Porque Lorenzo também olhava. Também desejava. E mais: também se envolvia. Mas sempre fugia no segundo seguinte, como um covarde emocional, como um homem que construiu um castelo à prova de sentimentos e se trancou dentro dele.
Isabella se levantou e caminhou novamente até a janela, encostou a testa na moldura fria da janela. A luz do fim de tarde a envolvia em dourado, mas nada nela brilhava por dentro.
Ela queria esquecer aquele toque. Queria que o corpo não tivesse gravado a memória do calor das mãos dele. Queria que o coração não disparasse com tanta facilidade só por estar no mesmo ambiente. Mas era inútil.
Ela estava envolvida. Profundamente envolvida.
E talvez a única forma de se salvar fosse cortar o mal pela raiz. Parar de esperar algo que nunca viria. Parar de olhar para ele com esperança.
Porque Lorenzo não era um homem que se permitia sentir. Ele havia decidido não amar mais ninguém. E ela… ela precisava aprender a deixar de amá-lo.
Nem que isso custasse um pedaço dela.
Porque amar Lorenzo era como tentar segurar o vento. E Isabella começava a entender que, por mais que o vento a tocasse… ele nunca seria dela.

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