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A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar romance Capítulo 76

A manhã na empresa Velardi começou com a precisão de sempre. O som das teclas, das vozes contidas entre as baias executivas e o tilintar do café recém-passado era quase uma trilha sonora rotineira. No décimo terceiro andar, Lorenzo Velardi liderava mais uma reunião de negócios, cercado de executivos atentos, gráficos projetados e contratos espessos sobre a mesa de carvalho escuro.

Vestido com um terno cinza grafite, camisa branca e gravata azul-marinho, Lorenzo parecia esculpido em pedra, imponente, concentrado, impassível. Seus olhos examinavam os documentos à frente, mas sua mente, por um instante, vagava por outro lugar.

Marco, deslizou uma pasta em sua direção com um ar de expectativa:

— Os russos querem fechar pessoalmente. É um acordo grande, Lorenzo. Eles fazem questão da sua presença.

Lorenzo ergueu os olhos devagar, pousando o olhar no amigo como quem pondera mais do que palavras poderiam explicar.

— E se eu mandar você?

— Eles recusaram de forma educada, mas firme. Disseram que, para um contrato desse porte, esperam negociar diretamente com o dono do império.

Lorenzo reclinou-se na cadeira, tamborilando os dedos contra a mesa. Ele pensou em Isabella, em Aurora, na sensação estranha de lar que começava a se formar debaixo do seu próprio teto, algo que evitou por tanto tempo. Mas o mundo dos negócios não esperava por emoções.

— Prepare tudo — disse, finalmente. — Quero o jato pronto em 48 horas, documentos revisados e o jurídico alinhado.

Marco assentiu.

— Alguma dúvida? — perguntou.

— Só uma. — Lorenzo ergueu o canto dos lábios com ironia contida. — O que é pior: o frio russo ou o calor das perguntas de minha mãe quando descobrir que estou saindo do país sem avisá-la?

Ambos riram. A tensão se dissolveu por um instante. Marco deixou a sala com sua pasta em mãos e um suspiro contido nos lábios.

A reunião encerrou-se com rapidez e precisão. Os executivos deixaram a sala um a um, deixando para trás um perfume misturado de colônia cara e expectativa. Lorenzo permaneceu por um momento sozinho, os dedos ainda repousando sobre a pasta, mas sem olhar para ela. A cabeça levemente inclinada. Os olhos perdidos em algo que não estava ali.

Foi então que a batida na porta o tirou do devaneio.

— Entre — murmurou, voltando ao presente.

A porta se abriu, revelando a figura elegante e contida de Elisa, sua secretária há mais de uma década. Ela trazia uma postura impecável, os cabelos presos num coque e os óculos presos à corrente dourada pendendo no colo.

— Senhor Velardi, chegou uma ligação internacional. Não está identificada, mas a origem é da Espanha.

Lorenzo ergueu o olhar, franzindo o cenho. Apenas uma pessoa ligava daquele número. Sua irmã mais nova.

— Pode transferir — respondeu com um suspiro cansado, já imaginando o tom provocador que vinha pela linha.

O telefone fixo tocou. Ele atendeu com a voz firme e direta.

— Velardi.

Do outro lado, uma risada leve e afiada soou antes que qualquer resposta formal fosse dada.

— Nossa, irmãozinho… tão sério como sempre. Quase assustador.

Ele recostou-se na cadeira, com os olhos semicerrados. Não era uma surpresa, afinal. Ela sempre soube o momento exato de aparecer, como um trovão após o relâmpago.

.Lorenzo se recostou na cadeira, já sorrindo com o canto da boca.

— Giulia — disse, com um meio sorriso que só ela era capaz de arrancar — quanto tempo…

— Sim eu sei, sou sua caçula favorita, lembra? — provocou, antes de mudar abruptamente de assunto com uma risadinha travessa. — E então? Alguma nova cunhada que eu deva conhecer?

Lorenzo revirou os olhos.

— Giulia…

— Não precisa me responder. Só me diga se a babá é mesmo tão bonita quanto a Marta me contou. Ou será que finalmente você abriu o coração para alguma mulher do seu meio? Uma executiva cruel com salto 12 e olhos de gelo?

— Já terminou?

— Quase. Estou só aquecendo. — Ela riu mais alto, agora abertamente divertida. — Mas já que estou ligando… Onde anda o contador gatinho da sua empresa? Como é mesmo o nome dele? Nicolas?

Lorenzo suspirou, levantando-se da cadeira e caminhando até a janela. O céu estava limpo, mas o clima prometia mudar.

— Até breve, Giulia.

— Ai, que grosseria. Mas tudo bem, irmãozão. Eu volto mesmo assim. Prepara o vinho. E o contador.

Ele desligou antes que ela dissesse mais alguma coisa. Mas permaneceu de pé diante da janela, encarando a cidade lá embaixo.

Sentia saudade da irmã. Da forma caótica com que ela quebrava sua rotina. Da leveza debochada que carregava, mesmo diante das cicatrizes da família.

E agora, entre a viagem à Rússia e a volta de Giulia, Lorenzo sentia que algo se aproximava. Um redemoinho de lembranças, mudanças… e talvez, se tivesse coragem, de recomeços.

Mas antes de qualquer passo, precisava manter tudo sob controle. Ou ao menos, continuar fingindo que conseguia.

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