O céu ainda estava tingido de azul pálido quando Aurora despertou. A luz suave do amanhecer invadia o quarto por entre as frestas da cortina, espalhando manchas douradas no carpete macio. A menina bocejou, espreguiçando os bracinhos pequenos, e logo seus olhos brilharam com uma ideia.
— Vou acordar a tia Isa! — murmurou, animada, escorregando do colchão com agilidade e pés descalços.
Aurora atravessou o corredor da mansão em silêncio, segurando suas bonecas Cacau e Lila, como se elas fossem um tesouro. O vestido de dormir, de algodão claro com desenhos de estrelinhas, esvoaçava levemente enquanto ela caminhava.
Ao alcançar o quarto de Isabella, empurrou devagar a porta entreaberta. A babá dormia profundamente, envolta nos lençóis, o cabelo loiro espalhado sobre o travesseiro.
Com um sorriso travesso, Aurora se aproximou e, subindo com cuidado na cama, deitou-se ao lado dela.
— Tia Isa... — sussurrou, plantando um beijo delicado em sua bochecha. — Tiaaa... acorda...
Isabella se remexeu, ainda, entre o sonho e a realidade.
— Hm... Aurora?
— Sou eu! — disse a menina, rindo baixinho. — Acorda! Eu sonhei com unicórnios voadores e princesas no castelo!
Isabella abriu os olhos aos poucos, encontrando o rosto iluminado da menina tão perto do seu e sorriu imediatamente.
— Mas que sonho mais mágico! — disse, puxando Aurora com carinho. — Isso merece cócegas comemorativas!
— Nãããão! — gritou Aurora, já rindo antes mesmo das mãos de Isabella tocarem sua barriguinha.
Mas era tarde demais. Isabella começou a fazer cócegas na barriga da pequena, nas costelas e no pescoço. Aurora se contorcia e ria alto, tentando escapar.
— Tia Isa! Eu... te amo! — disse entre risos e gargalhadas.
Isabella parou no mesmo instante, abraçando-a com força e emoção.
— Eu também te amo, minha luz. Meu amorzinho.
Do lado de fora, passando pelo corredor, Lorenzo diminuiu o passo ao ouvir as risadas. Parou diante da porta, que estava entreaberta, e observou por um instante. A cena diante dele era feita de puro afeto: sua filha, feliz como há muito não via, nos braços de uma mulher que sabia amar sem reservas.
Ele não entrou. Apenas sorriu com suavidade e seguiu seu caminho em silêncio, sentindo o coração aquecido por aquela felicidade silenciosa e rara.
Depois de muitos abraços e histórias inventadas entre lençóis, Isabella levou Aurora para o banheiro. O quarto se encheu de risadinhas e espuma de sabonete.
— Cuidado com as orelhas, tia Isa! Você vai me transformar em coelho! — disse Aurora, cobrindo-as com as mãos.
— Um coelho com asas e vestido de princesa — brincou Isabella, molhando os cabelos dourados da menina com delicadeza.
Quando o banho terminou, secou-a com uma toalha felpuda e perfumada, escolhendo um vestidinho azul-marinho, meias brancas rendadas e sapatinhos de verniz.
— Você está linda — elogiou, enquanto ajeitava a tiara com um pequeno laço rosa.
— E cheirosa! — completou Aurora, girando na frente do espelho.
As duas saíram de mãos dadas até a entrada da mansão, onde o motorista já aguardava. Aurora correu até ele e subiu no banco de trás, sorrindo. Isabella entrou logo depois, ajeitando a mochila escolar da menina.
Ao chegar à escola, Isabella abriu a porta e ajudou Aurora a descer. Logo as amiguinhas da menina vieram correndo, sorrindo e acenando.
— Tchau, tia Isa! — gritou Aurora, correndo para o portão.
— Bom dia, Aurora! — disseram as amiguinhas, dando pulinhos e risos. Isabella sorriu com ternura. O coração dela parecia sempre se encher um pouco mais quando via a menina feliz.
Ela decidiu voltar caminhando. A manhã estava fresca, com um vento leve balançando as folhas das árvores. Ao passar por uma padaria charmosa na esquina, não resistiu e entrou.
— Porque ela é meu mundo. — respondeu Isabella, baixando os olhos, sem perceber o quanto sua doçura deixava o médico ainda mais encantado.
— E o local onde o cão mordeu? Ainda doi? — disse procurando o local com os olhos. Isabella sorriu e mostrou a pequena cicatriz no braço.
— Graças ao senhor, quase não ficou cicatriz. — respondeu sorrindo.
Conversaram mais um pouco e Stefano acabou descobrindo que Isabella adorava música clássica e a convidou para assistir a uma apresentação da filarmônica no teatro na próxima semana. Isabella não conseguiu recusar e aceitou animada, deixando o coração do jovem doutor acelerado. Eles terminaram o sorvete e ele se ofereceu para deixá-la na mansão e Isabella aceitou de bom grado.
Chegaram à mansão minutos depois. Na porta, Stefano se despediu com elegância.
— Foi um prazer te reencontrar.
— Também gostei — disse Isabella, ainda com as bochechas coradas.
— Nos vemos na próxima semana. Passo por aqui antes para combinarmos.
— Tudo bem.
Ele se inclinou levemente, beijando sua mão como um cavalheiro antigo, e partiu. Isabella ficou ali por alguns segundos, parada na porta, segurando os doces e sorrindo sozinha.
Quando entrou, Marta olhou para ela com uma sobrancelha arqueada.
— Trouxe torta de limão? Deu sorte hoje, hein...
— Dei mesmo — respondeu Isabella, rindo.
Mas por dentro, algo vibrava: uma alegria leve, como uma brisa no rosto. Um daqueles dias em que o coração, mesmo confuso, se sentia grato por estar vivo.

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