O jantar estava servido na sala de jantar principal, com a mesa adornada com talheres de prata, taças de cristal e arranjos delicados de flores brancas e lilases. Marta havia superado todas as expectativas com um cardápio refinado: entrada de salada de folhas verdes com nozes caramelizadas, prato principal de risoto de cogumelos trufados e filé ao molho de vinho, seguido por uma sobremesa que fazia Aurora sorrir só de ouvir o nome: torta de chocolate com morangos.
Isabella acompanhava Aurora sentada ao seu lado, atenta a cada gesto da pequena, sempre com um sorriso gentil, mas discreto. Cristina e Marco sentaram-se à frente delas, claramente encantados não apenas com o crescimento da afilhada, mas também com a atmosfera acolhedora daquela casa.
Era inevitável: Isabella tinha feito da mansão Velardi um lar.
O som da porta principal se abrindo ecoou como um raio silencioso. Antonela ergueu os olhos, assim como Marta, que atravessava discretamente com mais uma travessa. Lorenzo entrou, tirando o paletó com elegância contida, e parou por um instante ao ver a cena diante de si.
O riso suave de Aurora, o olhar emocionado de Cristina, a maneira como Isabella, ainda de cabelos levemente soltos, tocava a mão da menina com ternura.
Seus olhos buscaram os dela, com fome, arrependimento e desejo de redenção. Mas Isabella sequer o olhou. Continuou entretida com Aurora, ajudando-a a cortar o filé no prato. Um incômodo se espalhou nos ombros de Lorenzo. A ausência do olhar dela pesava mais do que qualquer reprovação.
Antonella e Marta se entreolharam, como duas espectadoras silenciosas de uma história que se desenrolava em silêncio. Sabiam que ali havia mais do que um simples desconforto. Havia um afastamento doloroso, um pedido de perdão que ainda não tinha sido aceito.
Durante o jantar, Lorenzo permaneceu reservado. Respondeu perguntas com polidez, participou da conversa, mas sempre com os olhos voltando para Isabella, como se buscasse um sinal, um gesto, qualquer centelha que o reconectasse a ela. Mas Isabella manteve-se distante, ainda que cordial.
O muro entre os dois parecia agora alto demais.
Cristina notou o desconforto.
A maneira como Lorenzo a observava, como segurava o garfo com mais firmeza toda vez que Isabella sorria para Aurora. O desconcerto visível quando ela, ainda que por educação, o cumprimentava com um "boa noite" formal. Antonela também percebia, mas, com a elegância que lhe era característica, não teceu comentários. Observava tudo em silêncio, com os olhos afiados de quem conhecia bem o filho.
Após a sobremesa, Aurora, cansada, foi levada por Marta para o banho e para a cama. Isabella pediu para colocar a menina para dormir, mas Cristina a convidou para um passeio no jardim, e Aurora insistiu para a babá acompanhar a madrinha, porém fez Isabella prometer que iria ao seu quarto depois colocá-la para dormir.
Marco aceitou o convite de Lorenzo para uma bebida no escritório, e Cristina aproveitou o momento para caminhar com Isabella até a varanda, onde a noite oferecia um ventinho fresco e o perfume das flores era mais intenso.
As duas se sentaram lado a lado no banco de ferro fundido. A luz dourada da varanda as envolvia suavemente. Por um tempo, permaneceram em silêncio, apenas escutando o som das folhas se movendo ao vento e o murmúrio distante da água na fonte do jardim.
Cristina foi a primeira a falar:
— Você não tem ideia do quanto foi importante para a Aurora. Desde o acidente de Letícia que Aurora não falava… Foram quase três anos de silêncio, os melhores terapeutas. — Cristina se calou e encarou o céu estrelado. — Eu orei diversas noites pedindo a Letícia que enviasse uma solução. Não aguentava mais ver a dor nos olhos do meu amigo.
O silêncio que se seguiu foi espesso e revelador. Isabella manteve os olhos fixos na fonte. As palavras de Cristina ecoavam dentro dela como sinos distantes, repicando algo que ela mesma tentava calar há dias.
Cristina tocou levemente o braço dela e se levantou.
— Pense nisso, querida. Nem todo amor nasce pronto. Alguns precisam ser curados antes de florescerem.
E com isso, deixou Isabella sozinha na varanda, com os olhos marejados fitando o céu noturno.
Dentro da casa, Lorenzo surgia no corredor, com os olhos também presos ao banco da varanda. Quando viu Isabella sozinha, hesitou… mas não se aproximou.
Ainda não.
Mas o jantar daquela noite deixaria suas marcas. E, talvez, uma nova história estivesse sendo escrita, mesmo em meio aos cacos de um passado que ainda doía.

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