A madrugada repousava sobre a mansão Velardi com um silêncio quase sagrado. Lá fora, o vento acariciava levemente as árvores do jardim, fazendo as folhas sussurrarem em tom de segredo. Dentro da casa, todos dormiam, ou quase todos.
No quarto de hóspedes, Isabella se revirava na cama. O lençol amarrotado envolvia suas pernas, e uma camada fina de suor umedecia sua nuca. Os cílios tremeram sobre a pele pálida, e o rosto franzido revelava o que só os sonhos poderiam contar.
Ali, naquele limiar entre a vigília e o inconsciente, ela caminhava.
Estava no jardim da mansão, mas tudo parecia mais vivo. O céu era de um azul profundo, pontilhado por estrelas que cintilavam como se respirassem. O chão sob seus pés descalços era macio, coberto por um tapete de relva fresca, com gotas de orvalho brilhando como diamantes sob a luz da lua.
Isabella vestia um vestido leve, branco, que esvoaçava a cada passo. Sentia-se leve também, como se sua alma estivesse ali, liberta de todas as dores e incertezas.
Ao seu lado, uma mulher caminhava com passos serenos. Os cabelos castanhos caíam em ondas pelas costas e balançavam com uma brisa suave. Seus olhos, ah, os olhos, eram de um azul tão claro que pareciam carregar a luz do céu. Havia uma doçura etérea naquele rosto, uma presença que inspirava paz, mas também um respeito silencioso. Isabella não sabia seu nome, mas não temia sua presença. Pelo contrário. Sentia-se acolhida por ela.
— Está tudo tão bonito aqui — murmurou Isabella, olhando as flores que pareciam dançar com o vento.
— Sempre foi. Você só precisava olhar com o coração — respondeu a mulher com uma voz suave, quase melódica.
Caminharam em silêncio por mais alguns metros. O jardim, como em um sonho, parecia se expandir, ganhando novos contornos. As árvores altas protegiam o caminho, e pequenos vaga-lumes iluminavam a trilha como se fossem estrelas fugidas do céu.
Pararam diante de uma flor solitária. Uma flor que Isabella conhecia muito bem.
— Essa era a flor preferida dela — disse Isabella, sem entender de onde vinha essa certeza.
A Delphinium permanecia erguida e viva no centro do canteiro. Estava em pleno esplendor, tão perfeitamente aberta que parecia desenhada.
A mulher sorriu, com ternura e respondeu:
— E continua sendo.
Isabella a olhou, sentindo o coração apertado e uma angústia doce crescendo em seu peito. Havia algo de familiar naquela mulher. Algo profundo, algo que não vinha da lógica, mas da alma.
— Quem é você? — sussurrou, com a voz embargada.
A mulher se levantou e segurou as mãos de Isabella entre as suas.
— Meu nome é Letícia.
Um arrepio percorreu o corpo de Isabella dos pés à cabeça.
Letícia.
A esposa de Lorenzo a mãe de Aurora.
A mulher que ela nunca conheceu… mas que, de alguma forma, estava ali, diante dela, viva na essência do que importava. Isabella ficou sem ar por um momento.
— Eu… — balbuciou, mas Letícia a interrompeu com um gesto delicado.
— Eu sei quem você é, Isabella. Eu sei tudo o que tem feito por minha filha. Eu vejo e eu sinto.
Os olhos azuis estavam marejados. Um brilho quente os iluminava.
— Você a salvou — continuou Letícia. — Trouxe de volta a luz que ela havia perdido. Aurora voltou a sorrir, a correr, a falar… voltou a ser criança. Porque você a amou como se fosse sua.
Isabella sentiu as lágrimas escorrerem por suas bochechas. Aquilo era surreal demais para ser real, mas ao mesmo tempo… era tão verdadeiro que doía.
— Porque ele tem medo de amar de novo e perder novamente. Medo de se entregar e não suportar a dor de uma nova ausência. — Letícia deu um passo à frente. — Mas ele sente. Sente por você, Isabella. E eu vi isso nos olhos dele hoje, no jantar. Ele te olhou… como só olhou para mim um dia.
Isabella tremia. A emoção transbordava em ondas quentes.
— Você precisa ter paciência. Precisa acreditar por nós duas. Aurora precisa de você. Lorenzo também. E, mesmo que ele nunca diga… ele já te ama.
As últimas palavras ecoaram com força. Isabella não sabia o que responder. Apenas chorava em silêncio, sentindo o peso e a leveza daquela conversa impossível.
Letícia abriu os braços e a envolveu num abraço. Um calor inexplicável tomou conta do corpo de Isabella. Era como estar envolta por amor puro. Por aceitação, por bênção.
— Obrigada por amar minha filha — sussurrou Letícia ao seu ouvido. — E por amar o único homem que eu amei um dia … mesmo sem querer.
Isabella acordou com um sobressalto.
O quarto ainda estava escuro, mas o céu lá fora começava a clarear. Ela estava suada, com o coração acelerado. Sentou-se na cama, tentando recuperar o fôlego.
Olhou ao redor e tudo estava em seu lugar, exceto seu coração.
Passou a mão pelo rosto, sentindo as lágrimas secas em sua pele. E então, num impulso, levantou-se. Abriu a janela e deixou o ar frio da madrugada invadir o quarto.
Lá fora, no jardim, a mesma Delphinium que vira no sonho florescia silenciosamente sob a luz tímida do luar.
Isabella sorriu em meio às lágrimas.
— Eu prometo — sussurrou. — Eu não vou desistir dele.

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar