Entrar Via

A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar romance Capítulo 86

O despertar foi abrupto.

Isabella sentou-se na cama, ofegante, com o coração disparado dentro do peito. A respiração curta e irregular denunciava o peso do sonho que ainda pairava em sua mente. Letícia, o jardim, as palavras doces e o abraço impossível. Passou as mãos pelo rosto úmido de suor e lágrimas secas, tentando distinguir o que era lembrança, o que era sonho… e o que já se tornava uma estranha saudade.

A casa estava mergulhada no silêncio da madrugada, envolta pela penumbra azulada do céu antes do amanhecer. Isabella se levantou da cama lentamente, os pés descalços tocando o chão frio.

Olhou ao redor e tudo estava em seu lugar, exceto seu coração.

Passou a mão pelo rosto, sentindo as lágrimas secas em sua pele. E então, num impulso, levantou-se. Abriu a janela e deixou o ar frio da madrugada invadir o quarto.

Lá fora, no jardim, a mesma Delphinium que vira no sonho florescia silenciosamente sob a luz tímida do luar.

Isabella sorriu em meio às lágrimas.

— Eu prometo — sussurrou. — Eu não vou desistir dele.

Vestindo apenas uma camisola de algodão clara, simples, mas que delineava suavemente sua silhueta Isabella caminhou até a porta. Decidiu ir até a cozinha. Um copo de água talvez acalmasse a pulsação ainda acelerada.

Ao atravessar o corredor, seus passos eram suaves, respeitosos com o sono da casa. Passou pela escada, atravessou o grande hall de entrada, mas quando se aproximou da cozinha, um ruído abafado desviou sua atenção.

Vinha do escritório.

Isabella parou. O coração deu um salto no peito. Um estalo? Um objeto caído? Talvez apenas o vento... Mas o som se repetiu. Algo... ou alguém estava lá.

Hesitou por um momento. A lógica dizia para voltar, mas algo dentro dela, talvez uma intuição teimosa, a impulsionou a seguir. Com passos contidos, aproximou-se da porta entreaberta do escritório. A luz interna estava fraca, um abajur aceso junto à poltrona de couro dava à sala um ar íntimo e acolhedor.

E foi então que o viu.

Lorenzo Velardi.

Sentado na poltrona, a cabeça reclinada para o lado, os cabelos ligeiramente bagunçados, como se tivesse adormecido ali há muito tempo. Usava calça escura, mas a camisa branca estava completamente aberta, revelando o peitoral bem definido e o contorno sutil da musculatura de seu abdome. Os botões estavam soltos como se ele tivesse desistido no meio do caminho. Uma garrafa de uísque semi vazia repousava sobre a mesinha de canto. Ao lado, o copo ainda com líquido âmbar.

Isabella ficou parada por um momento, apenas observando. Aquele homem, sempre tão composto, tão rígido… parecia frágil. Exausto. Quebrado por dentro.

O peito dele subia e descia devagar, e sua expressão carregava traços de dor mesmo dormindo, como se sonhasse com algo que doía demais.

Ela se aproximou em silêncio. Com os olhos atentos e os passos lentos, quase reverentes. Quando estava ao lado da poltrona, estendeu a mão com hesitação, e pousou os dedos suavemente em seu ombro.

— Senhor Velardi… — sussurrou com cuidado. — Acho melhor o senhor ir para o seu quarto.

Os cílios dele tremeram. A respiração se alterou por um segundo. E então os olhos se abriram, devagar, mergulhados em um azul turvo pela bebida, mas ainda intensos como fogo vivo. A pupila estava dilatada, o olhar estava fixo nela. Não parecia acordar confuso, muito pelo contrário, parecia ter certeza de quem era.

— Molto Bella… — murmurou, em italiano, com a voz rouca, grave, embargada.

Isabella prendeu a respiração. O calor subiu pelas bochechas como fogo líquido, fazendo-a corar profundamente. Aquilo não foi um elogio casual. Havia um peso, uma verdade crua naquela declaração. Um homem em ruínas, bêbado talvez, mas lúcido o suficiente para deixá-la desconcertada.

Lorenzo obedeceu em silêncio. Se virou com lentidão e deitou-se sobre o colchão, os olhos ainda fixos nela. Isabella se ajoelhou à beira da cama e, com delicadeza, começou a tirar os sapatos dele. Um, depois o outro. A cada gesto, sentia o coração bater mais forte, como se estivesse ultrapassando uma linha invisível, mas inevitável.

Quando se levantou para sair, virou-se de costas, sem saber se conseguiria encará-lo novamente. Mas antes de cruzar a porta, a voz rouca dele soou atrás de si, baixa como um segredo, mas carregada de algo que a fez estremecer:

— Obrigado…

Isabella parou.

Seu corpo ficou tenso, as mãos trêmulas ao lado do corpo. O som da voz dele parecia ainda pairar no ar, como um calor morno que se recusava a desaparecer. Seus olhos se fecharam, apertados, como se a respiração precisasse se reorganizar dentro dela. Por um instante, tudo ficou suspenso, o tempo, a lógica, o mundo. Só havia aquele quarto, aquela voz e o caos dentro do seu peito.

Ela não respondeu. Não se virou. Apenas fechou os olhos mais uma vez e inspirou com força, tentando conter algo que não queria nomear. Então, sem dizer uma única palavra, cruzou o limiar do quarto e puxou a porta com delicadeza, até que se fechasse atrás de si com um leve estalo.

Mas do outro lado da porta, os dois ficaram em silêncio, sem dormir.

Isabella caminhou devagar pelo corredor escuro, como se cada passo fosse uma tentativa de escapar do olhar que ele lançou. O olhar que atravessava suas defesas, que dizia mais do que qualquer palavra, que implorava por algo que ela mesma não sabia se poderia dar.

No quarto, Lorenzo continuava deitado, com os olhos abertos na penumbra. O hálito dela ainda parecia pairar no ar. A mão dela ainda parecia pousada em sua pele. E mesmo embriagado pelo cansaço, ele sabia que aquela noite mudaria algo.

Ambos sabiam, mas nenhum deles ousou dizer.

Ainda.

Histórico de leitura

No history.

Comentários

Os comentários dos leitores sobre o romance: A Babá Virgem e o Viúvo que Não Sabia Amar