O sol da manhã atravessa as grandes janelas da cantina, lançando faixas douradas sobre as mesas cheias de alunos. O burburinho dos estudantes preenche o ar com risos, conversas e barulho de bandejas. No canto esquerdo, perto das máquinas de suco, sentam-se April e Mel, com os cabelos soltos, uniformes impecáveis e as mochilas jogadas de lado. As duas compartilham uma torta de frango enquanto comentam sobre a prova de matemática e o ensaio da apresentação de teatro.
— Se aquela professora inventar de colocar fração na prova de novo, eu juro que desmaio — resmunga Mel, fazendo careta.
April sorri de canto, girando o canudo no copo de suco.
— Relaxa, você foi bem ontem no reforço. E se desmaiar, eu te seguro. Vai ficar tudo bem, Melzinha.
As duas riem cúmplices, até que um comentário vindo da mesa de trás corta o ar entre elas como um estalo seco.
— E ele é simplesmente perfeito. Sério, o Tomás parece até que saiu de uma série da N*****x. Alto, aquele cabelo bagunçado, e aquele olhar que parece que tá sempre desafiando alguém…
April congela por um instante. O nome Tomás ecoa nos ouvidos dela como uma pequena provocação do destino.
— Vai fundo, amiga. Você é a garota mais gata e popular dessa escola — diz uma das garotas, com a voz arrastada e arrogante. — Lógico que ele vai querer ficar com você… e não com certas moscas mortas por aí.
O riso forçado que segue é como vidro estilhaçando no chão.
Mel se vira bruscamente, os olhos faiscando, o corpo já se movendo para levantar.
— Oi? Que que você disse?
Mas antes que a prima possa dar mais um passo, April segura seu braço com firmeza, mas com delicadeza. Sua voz sai baixa, um sussurro que só Mel escuta.
— Deixa isso pra lá, prima…
Mel hesita, a mandíbula cerrada, as mãos trêmulas. Mas o olhar de April é sereno. Controlado. Como se aquela frase maldosa não tivesse perfurado sua pele, embora tivesse. Como se ela não tivesse notado os olhares das duas garotas por cima dos ombros. Como se o nome de Tomás não tivesse acelerado o coração dela em segredo.
Ela apenas dá um pequeno sorriso e leva o copo à boca, disfarçando a tensão nos dedos.
Mas por dentro, April sente algo diferente. Uma faísca acesa. Não de raiva… mas de algo ainda mais perigoso: insegurança.
O pátio da escola ganha vida à medida que o intervalo avança. Os grupos se formam embaixo das árvores, nas escadarias, ao redor das mesas da cantina. A movimentação parece orquestrada, como se todos estivessem exatamente onde deveriam estar.
E então, como se o ar mudasse de densidade, Tomás aparece.
Ele caminha pelo pátio ao lado de David e Tiago, os três vestidos com o uniforme azul-marinho impecavelmente amassado, como só os garotos bonitos conseguem usar. As mochilas jogadas nos ombros, os passos despreocupados, os sorrisos contidos… Bastou eles surgirem para que o murmúrio ao redor aumentasse. Algumas meninas literalmente pararam de mastigar, outras começaram a arrumar os cabelos ou ajeitar a postura. Os suspiros foram quase sincronizados.
— Ai meu Deus… lá vem os três mosqueteiros da perdição — sussurra uma das garotas da mesa ao lado, com os olhos colados em David.
David não perde tempo: se separa do grupo, caminha direto até a mesa de Serena, sua namorada, e a beija com ternura nos lábios, os dedos tocam o rosto dela com delicadeza fazendo Serena sorrir, toda boba.
— Eu sou apaixonada pelo Tiago… mas ele também tem dona. — sussurra outra menina com pesar.
Tiago vai logo atrás, puxando Bianca para perto, dando-lhe um beijo rápido e sorrindo de canto, como se tivesse acabado de vencer alguma aposta silenciosa.
Tomás, por outro lado… segue um caminho diferente.
Ele caminha devagar, sem pressa, os olhos fixos em April, que continua de cabeça baixa, mexendo distraidamente no canudo do suco como se nada estivesse acontecendo. Mas Mel percebe. Ela percebe o jeito como o coração da prima parece acelerar. Percebe o ar ficando mais denso ao redor da mesa.

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