O camarim estava silencioso.
Diferente do caos lá fora, ali dentro o tempo parecia mais lento, quase pesado, como se cada segundo tivesse mais densidade do que deveria.
Lais estava parada diante do espelho.
Respirando fundo.
Uma vez.
Depois outra.
Tentando desacelerar o próprio corpo, que ainda reagia como se estivesse no palco.
Com cuidado, levou as mãos até o rosto.
E retirou a máscara.
Devagar.
Como se aquele gesto significasse mais do que apenas tirar um acessório.
Como se estivesse, aos poucos, voltando a ser ela mesma.
Ou tentando.
Seus olhos encontraram o próprio reflexo.
E, por um instante…
ela não gostou do que viu.
Não pela maquiagem.
Nem pelo cansaço.
Mas pela tensão.
Ainda ali.
Viva.
A mão desceu automaticamente até a lateral da cintura.
O lugar onde a tatuagem estava escondida sob camadas de base.
Intacta.
Protegida.
Assim como precisava ser.
A porta abriu.
Sem pressa.
— Você arrasou.
A voz do Jefão preencheu o ambiente com leveza, quebrando o silêncio.
Lais não se virou de imediato.
Apenas soltou o ar devagar, como se estivesse se preparando para voltar à superfície.
Então esboçou um sorriso.
Pequeno.
Forçado.
— Obrigada.
Ele se aproximou um pouco mais, apoiando-se no batente da porta, observando-a pelo reflexo do espelho.
— E aquilo lá? — perguntou, com um meio sorriso curioso. — Microfone, luz vermelha… show extra?
Lais deu de ombros, fingindo naturalidade.
— Nada demais. Só quis inovar um pouco.
A resposta saiu fácil.
Treinada.
Mas não convincente.
O Jefão a encarou por alguns segundos.
Em silêncio.
Ele conhecia.
Sabia ler sinais.
Sabia quando algo não batia.
Mas também sabia quando não deveria insistir.
E, com Lais…
era exatamente esse o caso.
— Funcionou — disse por fim, simples. — A casa quase veio abaixo.
Lais assentiu.
Mas não sorriu dessa vez.
— Descansa um pouco — completou ele, se afastando da porta. — Hoje você fez mais do que suficiente.
Ela apenas concordou com um leve movimento de cabeça.
A porta se fechou novamente.
E o silêncio voltou.
Mais pesado.
Mais verdadeiro.
Lais voltou a encarar o espelho.
Mas agora não era sobre a apresentação.
Nem sobre o sucesso.
Era sobre outra coisa.
Sobre o olhar dele.
Sobre o momento em que tudo quase saiu do controle.
Sobre o fato de que…
ele estava perto demais.
A respiração falhou por um segundo.
Curto.
Mas suficiente.
— Droga… — murmurou, baixo.
A mão voltou à barriga.
Instintiva.
Protetora.
Porque, pela primeira vez desde que tinha decidido voltar…
Lais sentiu.
De verdade.
O perigo não estava mais só no lugar onde ela estava.
Estava em quem tinha visto.
Lais sempre saía pelos fundos, algo que já fazia parte da rotina, quase automático, incorporado ao plano e à própria sensação de segurança que aquele lugar exigia. Mas, naquela noite, nada parecia tão simples quanto antes. Assim que empurrou a porta e deu o primeiro passo para fora, o corpo travou por instinto, antes mesmo que a mente pudesse entender o motivo. O olhar encontrou, ao longe, um carro parado na rua — escuro, discreto, aparentemente comum… mas conhecido demais para passar despercebido.
Heitor.
O coração disparou na mesma hora, forte e seco, como um alerta interno que não podia ser ignorado. Lais recuou um passo, mantendo-se parcialmente protegida pela sombra da porta, enquanto avaliava a situação em silêncio. A noite ajudava — a pouca iluminação, a distância, o posicionamento — tudo indicava que ele não a tinha visto. Mas aquilo não significava segurança. Significava apenas que ela ainda tinha uma chance.
— Porra… como vou sair agora? — murmurou, quase sem voz, mais para si mesma do que para qualquer outra coisa.
— Tem alguém?
A voz do segurança surgiu atrás dela, firme e atenta, fazendo com que Lais virasse o rosto rapidamente, forçando uma expressão neutra, controlada. Balançou a cabeça com naturalidade, mesmo com o corpo ainda em alerta.
O homem a observou por um segundo, em silêncio. E então tomou uma decisão.
— Vem comigo.
Ele não esperou resposta. Apenas virou e entrou novamente, e Lais o seguiu sem questionar, porque naquele momento ela sabia que não podia ser vista.
O corredor era estreito e mal iluminado, com cheiro de umidade e algo antigo que não dava para identificar. Os passos ecoavam mais do que deveriam, tornando o caminho ainda mais tenso, até que pararam diante de uma porta de ferro no fim do corredor. O segurança abriu e indicou o caminho com um gesto direto.
— Passa por aqui e segue em frente. Você vai encontrar uma portinha com luz. Entra e diz que foi o Jefão que mandou… e sai rápido.
Lais assentiu.
— Valeu.
Entrou sem olhar para trás.
A porta se fechou atrás dela com um som seco, isolando qualquer resquício do mundo anterior. Ela puxou o celular do bolso e ligou a lanterna, revelando um corredor ainda mais longo do que esperava, vazio, silencioso, quase opressor. Começou a andar com passos rápidos, mas cuidadosos, sentindo que o som do próprio movimento parecia alto demais naquele ambiente fechado.
— Que merda… onde isso vai dar? — murmurou, já sentindo a tensão voltar a crescer.
Os minutos pareceram mais longos do que realmente eram, até que, finalmente, ela avistou uma pequena porta com uma luz acesa por cima. Sem pensar duas vezes, avançou e abriu.
O contraste foi imediato.
Calor, barulho, movimento.
Uma cozinha.
Panelas, vapores, vozes, cheiro de comida no ar — um ambiente completamente vivo, que contrastava com o silêncio sufocante de onde ela vinha. Por um segundo, todos pararam. Os olhares se voltaram para ela, estranha, deslocada, fora daquele contexto.
— Desculpa… — disse rápido, ainda meio ofegante. — O Jefão mandou.
Um dos homens, aparentemente já acostumado com aquele tipo de situação, fez um gesto com a mão, sem questionar.
— Vem, rápido.
Ele indicou uma saída lateral, e Lais atravessou a cozinha quase correndo, passando entre as pessoas, desviando de panelas e movimentos, até finalmente alcançar a porta.
E sair.
Agora estava do outro lado da rua.
Mais distante.
Mais segura.
Ou pelo menos… o suficiente para respirar.
Sem olhar para trás, caminhou rápido até encontrar um táxi. Entrou e fechou a porta com mais força do que pretendia.
— Pode ir.
A voz saiu baixa, mas carregada de tensão.
O carro começou a se mover, e só então ela conseguiu respirar de verdade. O corpo relaxou contra o banco, os olhos se fecharam por um segundo — curto, mas necessário, como se precisasse se reconectar com a própria realidade.
Mas o alívio não durou muito.
Porque, no fundo…

Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Casei com Meu Chefe Frio e Bilionário
Impossível de ler, vários capítulo não abrem só aparece o anúncio. Vou nem gastar dinheiro pq vou me arrepender...
Caraca vários capítulos não abrem. Muito ruim assim. mailto:[email protected]...
Quando vai liberar os próximos capítulos, please??????...
Libera mais capítulos pff...