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Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango ) romance Capítulo 674

~ BIANCA ~

A carta continuava nas mãos do Nico como se tivesse peso próprio.

Ele estava parado no meio da sala, sem camisa, cabelo ainda bagunçado de manhã, e mesmo assim parecia… formal. Como se o corpo dele tivesse entendido que a casa tinha virado tribunal.

As mãos tremiam um pouco — quase nada, quase imperceptível — mas eu vi. Eu via tudo nele. Sempre vi.

Eu encostei na bancada da cozinha, tentando manter o ar dentro do peito. O cheiro de café que eu tinha começado a fazer agora parecia errado. Coisa de um mundo que não era o nosso naquele minuto.

O celular vibrou em cima do mármore.

Chamada de vídeo.

Um dos advogados.

A tela mostrava o nome e, por um segundo, eu quis deixar tocar. Como se ignorar pudesse atrasar a realidade.

Nico levantou os olhos pra mim, e naquele olhar tinha uma pergunta silenciosa: atende.

Eu atendi.

— Doutor Conti — eu disse, já tentando firmar a voz.

O rosto dele apareceu, enquadrado demais, fundo neutro demais, o tipo de imagem que já vinha com notícia ruim embutida. Ele não sorriu.

— Senhora Bellucci. Senhor Montesi. — Ele respirou uma vez, profissional. — Eu tenho notícias… não muito agradáveis.

Eu soltei um ar curto, sem humor.

— É. A gente sabe. Acabou de chegar a notificação.

Por trás de mim, ouvi o papel amassar um pouco. Nico tinha apertado mais forte, como se pudesse esmagar a ideia de volta para dentro do envelope.

O advogado piscou devagar. Como quem confirma uma suspeita.

— Ela agiu rápido — ele disse. — E agiu com intenção.

Nico apareceu no enquadramento, entrando de lado, como se a câmera fosse a porta de uma sala que ele ia invadir.

— O que ela quer com isso? — ele perguntou, a voz baixa e tensa. — Exatamente o que ela quer?

O advogado sustentou o olhar, sem se intimidar — era o trabalho dele.

— Ela entrou com um pedido de medida urgente. Uma tutela provisória. Traduzindo: Renata quer que o tribunal decida, de imediato, uma alteração temporária na guarda enquanto o processo principal corre.

Nico ficou imóvel.

Eu senti uma coisa fria descendo dentro de mim.

— Temporária como? — eu perguntei, antes que a raiva dele virasse algo que a gente perdesse controle.

— Temporária como… por exemplo, a criança passar um período com a mãe, ou um regime de visitas ampliado para ela, até que o juiz decida a guarda definitiva.

Nico soltou um riso seco, incrédulo.

— Ela acha que vai conseguir isso com uma birra e uma frase ensaiada?

O advogado não respondeu a provocação. Ele foi direto ao roteiro que eu sabia que ele já tinha na cabeça.

— Os próximos passos, objetivamente: o tribunal marca uma audiência com urgência. Em paralelo, o juiz pode pedir um parecer técnico — psicólogo, assistente social, uma avaliação do núcleo familiar.

Eu senti meu estômago apertar.

Eu apertei os ombros dele com as duas mãos, como se pudesse segurar o chão no lugar.

— E o que a gente faz agora? — eu perguntei. — Objetivamente. Hoje.

— Hoje vocês fazem duas coisas — o advogado respondeu imediatamente. — Primeiro: não reagir com impulsividade. Nada de mensagens para Renata, nada de discussões por escrito, nada de confrontos na frente da criança. Segundo: documentar. Tudo. Relatórios da escola, rotina, agenda, quem leva e busca, consultas médicas, comportamento, qualquer prova de consistência.

Ele fez uma pausa curta, depois acrescentou:

— E vocês precisam preparar Bella para uma conversa honesta. Não sobre “processo”. Sobre segurança. Ela tem que sentir que está segura. Porque, se ela chegar diante de uma figura de autoridade e repetir o medo… isso pesa.

Nico respirou fundo, mas parecia que o ar não entrava.

— Tá — eu disse, firme, mesmo com a garganta apertada. — Então a gente vai fazer direito. Sem drama, sem cena, sem reação. Só… cuidar dela.

Minha mão continuava nos ombros do Nico, e eu senti ele olhar pra mim de lado, como se quisesse se apoiar e não soubesse se podia.

Eu apertei mais uma vez.

— Tudo bem — eu falei, pra ele, não pro advogado. — A gente está seguro, então.

As palavras saíram com uma certeza de que eu não tinha o direito de prometer.

Porque eu ouvi o eco invisível da condição do advogado dentro da minha cabeça, como se fosse carimbo:

Desde que a menor expresse vontade de permanecer com o pai.

E, naquele momento, eu soube que a Renata não estava tentando ganhar no papel.

Ela estava tentando ganhar na boca de uma criança.

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