~ BIANCA ~
Por um segundo, eu só fiquei olhando para o foco do microfone, como se aquilo fosse um objeto neutro. Então, eu sorri com educação suficiente para não virar manchete.
— Obrigada pela pergunta — eu disse, no mesmo tom com que eu teria respondido sobre fluxo de caixa ou expansão de mercado. — A adaptação emocional de uma criança é um processo, não um evento. E o que costuma funcionar melhor, independentemente da estrutura familiar, é constância: rotina, previsibilidade, comunicação adequada à idade e um ambiente em que a criança se sinta segura para expressar o que está sentindo.
Parei aí, propositalmente.
Nada de “na minha casa”. Nada de “na minha família”. Nada que pudesse virar munição. Meu trabalho sempre foi escolher palavras como quem escolhe números: com consequências.
Renata inclinou a cabeça como quem está escolhendo o melhor ângulo de ataque. Um movimento mínimo, mas eu conhecia esse tipo de linguagem corporal. Eu cresci cercada de gente que sorria enquanto cortava.
— Entendo — ela continuou, com aquela calma calculada. — E quando essa criança… demonstra sinais claros de rejeição? Quando ela não quer a pessoa nova? Quando ela pede a mãe de verdade?
Algumas pessoas se mexeram nas cadeiras, aquele movimento coletivo de quem sente cheiro de conflito e decide ficar. Eu vi a moderadora prender a respiração. Vi uma das palestrantes ao meu lado apertar o próprio bloco de notas como se estivesse com vergonha por mim.
Eu mantive o sorriso, mas tirei a doçura.
— Eu respondo perguntas sobre o tema do evento — eu disse. — E não entro em questões pessoais de terceiros, nem minhas, em um ambiente público.
Renata abriu um sorriso curto.
— Ah. Então a senhora prefere falar sobre “mulheres líderes” no palco… mas não sobre o impacto emocional real de uma mulher líder no ambiente familiar, especialmente quando... não consegue liderar? Interessante.
Meu estômago fechou, mas eu não deixei passar nada no rosto. Eu aprendi cedo que certas pessoas se alimentam de microexpressões. Se eu desse um milímetro, ela pegava um metro.
Eu olhei para a moderadora por um segundo — ela estava claramente desconfortável, procurando uma saída elegante. Eu dei a saída antes que ela precisasse.
— Eu prefiro falar sobre negócios, sim — eu disse, seca o suficiente para deixar claro que eu não ia dançar conforme música dela. — E prefiro, principalmente, não usar crianças como espetáculo. Se não há mais perguntas sobre liderança e carreira, eu agradeço a presença de todos.
Um aplauso começou em algum lugar — primeiro tímido, depois mais firme, como se o público estivesse feliz em ter permissão para encerrar aquela situação sem parecer cúmplice do sensacionalismo.
Eu inclinei a cabeça, sorri para a moderadora e devolvi o microfone. Desci do palco com as mãos frias e a nuca quente, sentindo a adrenalina que eu só costumava ter em negociações duras — e, mesmo assim, aquilo era pior, porque não tinha contrato para segurar.
Nos bastidores, a organizadora veio depressa, luminosa, como se eu tivesse acabado de salvar o evento de um incêndio.
— Bianca! Você foi impecável. Impecável — ela falou baixo, como quem comenta um segredo. — Eu fiquei com medo de aquilo virar… você sabe. Mas você contornou com classe. Foi um sucesso.
— Obrigada — eu disse, e a palavra saiu correta. Vazia. Eu estava me segurando por dentro como se estivesse segurando uma taça cheia até a borda.
— As patrocinadoras amaram. E as meninas do painel… — ela fez um gesto animado. — Vamos tirar uma foto final?
Eu tirei. Sorri. Apertei mãos. Fiz o protocolo inteiro, o mesmo teatro elegante que eu sabia fazer desde sempre.
Quando a última foto acabou, eu disse que precisava retocar a maquiagem e caminhei rápido até o banheiro, como se fosse só isso. Mas, no fundo, eu precisava de dois minutos em que ninguém olhasse para mim como “a mulher do palco”.
O banheiro estava aparentemente vazio. O tipo de silêncio de lugar caro: cheiro bom, papel bom, espelho grande. A iluminação era gentil — ironicamente gentil — como se ali dentro nada pudesse acontecer.
Eu fui direto para a pia, liguei a água e encarei meu rosto no reflexo como quem confere se ainda está inteira. Eu respirei uma, duas vezes. E pensei em Bella. Não na birra, mas no medo. Na forma como aquela criança tinha me olhado como se eu fosse uma invasão.
Eu pensei: isso não é sobre mim. E, ao mesmo tempo, era.
A porta abriu.

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Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: Comprei um Gigolô e ele era um Bilionário (Kayla Sango )
Ja deu, né?! Quanto tempo mais a bandidagem vai se dar bem?! Ja nao ta mais colando essas artimanhas da Renata em juizo, nem a pau isso aconteceria no Brasil se do outro lado estivesse um pai e filha abandonados e uma familia poderosa como a da Bianca ... ja esta muito surreal essa narrativa....
Tudo q essa vaca da Renata faz da certo. Q ódio! Mulher ruim. Não vejo a hora dela se estrepar muito....
Gente pra comprar 200 moedas é 2 reais ou 2 dolares ? O simbolo ta ($)...
Essa Renata é repugnante! Affe...
Tem previsão pra sair o resto dos capítulos?...
Renata é a pior das vilãs até agora. Sem escrúpulo nenhum! Usar criança para fazer o mal, e pior… a própria filha… :’(...
Eu amo esse casal!!!! Que lindos!...
Parei no 636 e não consigo mais lê . Alguém pra me ajudar ? Como faço...
Algumas pessoas falaram que ela ainda está escrevendo o livro, eu até entendo essa parte, mas ela deveria só lançar um “episódio” com novos personagens qd tivesse condições de liberar alguns capítulos por dia. Acho que ela deve ter tirado férias ou aconteceu algo, mas seria de bom tom ela informar aos leitores. Qd acaba a história de um personagem ela sabe deixar um recadinho e pedir para passar para história seguinte, não era nada demais dar uma satisfação aos leitores....
Compromisso nenhum com os leitores, verdadeiro desrespeito....