Cap. 54
Ponto de vista Talyta
Cruzei os braços, sentindo o calor subir pelo rosto.
— Essa é a única roupa que eu tenho para dormir e que foi você comprou.
Ele resmungou, apoiando o cotovelo no joelho e passando a mão pelo rosto, como se precisasse respirar fundo.
— Vou conversar com o meu assistente... — murmurou, num tom baixo, quase para si mesmo.
Revirei os olhos, fingindo desdém.
— Não precisa dramatizar.
Fui até a cozinha, deixando-o para trás. Coloquei as mãos no trabalho, procurando distração em cortar, mexer panelas, sentir o cheiro dos temperos me reconfortando.
Era como se cozinhar me puxasse de volta para algo que eu conseguia controlar, a saudade que eu tinha de cozinhar para meus filhos... a falta que o barulho deles causava e estar cozinhando para alguém agora, era reconfortante, quando terminei, organizei a mesa.
Donovan apareceu em silêncio, acomodando-se à mesa. Não disse nada, apenas observou. Senti o peso daquele olhar em cada movimento meu.
Terminei, servi os pratos, e quando me sentei diante dele, um silêncio estranho tomou conta.
Era pesado, mas não sufocante. Um silêncio carregado, como se cada um de nós tivesse medo do que poderia acontecer caso quebrássemos com palavras erradas.
Eu tentei disfarçar, brincando com a colher.
— Aposto que você não está acostumado a alguém cozinhando aqui.
Ele ergueu os olhos, fixando os meus, e um canto da boca se curvou.
— Não. — respondeu simplesmente. — Mas é bom, raramente eu uso a cozinha, já que nunca estou em casa.
A forma como ele disse aquilo, lenta, controlada, fez meu coração bater mais rápido. Porque não era apenas sobre a comida.
Eu estava tentando manter o clima leve, mas não consegui segurar a curiosidade.
— Só tem um quarto aqui? — perguntei, mordendo o canto da boca.
— Sim. — Donovan respondeu de imediato, como se tivesse previsto a pergunta.
— Ah... — murmurei, sem graça, mexendo na comida, mas antes que eu pudesse elaborar qualquer coisa, ele completou:
— Eu vou dormir no sofá não se preocupe com isso.
Ergui os olhos para ele, surpresa.
— Não quer a cama?
Foi então que ele arqueou a sobrancelha, com aquela calma irritante.
— Você vai estar lá?
Senti meu rosto esquentar na hora. Baixei a cabeça, tentando esconder o rubor e engolindo em seco. Esse homem não sabia brincar.
Ele não esperou resposta. Terminou sua refeição e se levantou, levando o prato para a pia. Eu corri atrás, protestando.
— Espera, eu lavo, você está machucado!

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