— Você realmente tem dúvida de que seus pais disseram isso? Depois de terem permitido que você entrasse na igreja no lugar da sua irmã? — Ele lançou, com um olhar duro.
Por mais que aquela pergunta doesse, eu sabia a resposta. Meus pais eram, sim, capazes de tudo — especialmente para proteger Raquel da fúria de Renato Salles.
— Eles não podem fazer isso comigo… — murmurei, ainda incrédula.
— Mas fizeram — ele rebateu, seco. — Então, é melhor pensar bem em como vai se dirigir a mim daqui para frente, Sara. Porque, embora eu pareça bem paciente agora, ainda estou pensando no que farei com você.
— Apenas me deixe ir, por favor. Já teve o que queria, um casamento.
— Acha mesmo? — retrucou, entregando meus óculos de volta.
Coloquei depressa no rosto e o encarei. Ele não parecia estar blefando. A firmeza no olhar, o tom de voz… tudo me dava calafrios. Mas, por mais medo que sentisse, eu não podia deixá-lo me tratar como uma “coisa”.
— Saia do meu quarto — pedi, querendo dar fim àquela conversa, pelo menos por hoje.
— Nada aqui é seu, tudo é meu. Inclusive você! — disparou, já se virando para a porta. — E se não quiser me ver novamente, é bom ficar bem longe dessa porta!
Assim que ele saiu, ouvi o som da chave girando na fechadura.
Trancada.
— Meu Deus… — murmurei, com um nó na garganta.
Apavorada com o que poderia acontecer, arrastei uma cadeira e a encostei na porta. Se ele tentasse entrar, o barulho me acordaria — caso eu conseguisse dormir, o que parecia quase impossível naquela noite.
Fui para o banheiro e liguei o chuveiro. Deixei a água cair sobre mim, tentando levar o medo, a tensão, o desespero. Mas não adiantou. Quando terminei, me enrolei na toalha, escolhi outro roupão e vesti.
Olhei para o meu reflexo no espelho e passei a mão pela testa, angustiada.
— Eu não posso continuar assim… — sussurrei.
Estava presa, num lugar isolado, sem uma única peça de roupa e sem saída.
— Tem como piorar? — me perguntei, mas, com medo da resposta, decidi não pensar muito.
Após alguns minutos, saí do banho com um novo roupão e caminhei até a cama, quando um barulho na porta me fez parar no meio do caminho.
Fui até ela e a abri devagar. Uma senhora, de aparência terna e sorriso simples, com cerca de quarenta anos, estava ali, segurando uma bandeja.
— Boa noite, senhora. Trouxe o jantar — disse ela com um tom educado.
— Boa noite. Muito obrigada! — respondi, estendendo as mãos para pegar a bandeja, mas ela recuou antes que eu tocasse nela.
— Pode deixar que eu a sirvo — falou, entrando no quarto com naturalidade. — Com licença.
Ela caminhou até uma pequena mesa no canto do quarto e, com movimentos rápidos, ajeitou tudo, deixando a refeição posta.
Agradecida, sorri.

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