Sem saber o que fazer, me virei para sair dali, mas ao erguer os olhos, dei de cara com a mulher que nos recebeu na porta. Ela me encarava com um olhar indecifrável, os braços cruzados e a postura rígida.
— Oi — disse, tentando soar cordial. — Será que poderia me mostrar onde fica o meu quarto?
Ela se aproximou em silêncio, me analisando de cima a baixo. Não era preciso ler mentes para saber o que se passava dentro da cabeça dela.
— Você não é a noiva do Renato — comentou, com um leve arqueamento de sobrancelha.
— Tem razão — assumi, sem fugir do olhar. — Mas, no fim das contas… acabei me casando com ele.
— O que aconteceu? — perguntou, claramente curiosa.
Por algum motivo, aquela mulher me deixava desconfortável. Talvez fosse o olhar, ou o tom com que falava. Eu não sabia explicar, só sabia que não devia confiar nela.
— Se quer mesmo saber o que aconteceu, é melhor perguntar para o próprio Renato — desviei.
O rosto dela se fechou. Percebi na hora que ela não gostou da minha resposta. Ainda assim, manteve a postura ereta e apontou uma porta ao lado do quarto onde Renato havia entrado.
— Seu quarto é esse aqui, senhora — disse, com um sorriso falso no rosto e o tom zombeteiro disfarçado de formalidade.
Segui atrás dela e entrei. O quarto era grande, com uma cama de casal enorme e um armário luxuoso feito de madeira escura, que exalava riqueza.
— No banheiro há toalhas e roupões… Caso queira trocar de roupa — disse com desdém.
Percebi um leve sorriso querendo se formar em seus lábios, mas não disse nada, apenas agradeci.
— Obrigada.
— Deseja que eu traga algo para comer?
Fiquei sem graça. Nunca fui servida na vida, muito menos por alguém que deixava claro que me desprezava. Mas como não tinha outra escolha, nem roupas para sair dali, aceitei.
— Eu agradeceria muito.
— Ótimo. Vou solicitar que tragam algo agora mesmo.
Antes de sair, ela me analisou mais uma vez, como se tentasse me decifrar… ou me diminuir.
Sozinha, respirei fundo e explorei o quarto com mais atenção. Notei três portas. Abri a primeira e encontrei um banheiro ainda mais impressionante, espaçoso, com uma banheira de hidromassagem e espelhos emoldurados com detalhes dourados. Já a segunda porta dava para a varanda do quarto e a terceira… estava trancada.
Curiosa, me abaixei para espiar pela fechadura, mas antes mesmo de tentar olhar, a porta se escancarou de repente.
— O que pensa que está fazendo? — A voz de Renato me atingiu como um raio.
Quando levantei os olhos, me deparei com ele, só com uma toalha enrolada na cintura, o cabelo estava úmido, a pele dourada. Quase engoli a língua.
Por um instante, esqueci até do meu próprio nome.
— Responda, Sara! — ele ordenou, com o olhar penetrante. — Está tentando invadir o meu quarto?
— E-eu… eu não sabia que os quartos eram ligados por uma porta — murmurei, desviando o olhar para o interior do quarto atrás dele.
Ele ficou em silêncio por um momento, seus olhos pareciam analisar cada reação minha. Mas naquele momento, eu só conseguia pensar em uma coisa:
Como a Raquel teve coragem de abandonar aquele homem?
Apesar da expressão sombria, Renato era lindo, quase um deus grego. Seu corpo era perfeitamente esculpido, com músculos definidos, postura imponente e um magnetismo que beirava o perigo.
— O que foi? O gato comeu a sua língua? — ele provocou, com um tom irônico, ao perceber que o analisava.
— N-não, claro que não — respondi depressa, desviando o olhar. — Eu só… estava explorando o quarto. Tentando entender onde estou metida.
— Cuidado, curiosidade demais pode matar o gato — disse, com um sorriso enviesado.
— Eu sei — murmurei, sem graça.
— Já tomou banho?
— Ainda não.
— Você era o noivo da minha irmã. Jamais faria isso — falei, com a voz trêmula, mas convicta.
— Era, até ela me apunhalar pelas costas.
— Mesmo assim, isso não é certo.
— Por quê? Sou seu marido agora — insistiu.
— Nós dois sabemos que esse casamento é uma mentira. E vai acabar logo.
— Só acaba se você fizer o que estou propondo.
Por um segundo, cogitei. Uma porta de saída. Uma chance de liberdade. Mas a que custo?
— Eu nunca me deitaria com você. Nem se fosse o último homem na face da Terra — declarei, sentindo o nó subir à garganta.
Foi como acender um pavio. O rosto de Renato endureceu. O maxilar travou e seu pescoço estalou.
— Quem você acha que é para me desprezar assim? — rosnou, apertando minha cintura com mais força.
— Se não quer me ouvir, então só me deixe ir — pedi, com a voz embargada.
— E para onde, exatamente, você iria? — ele perguntou, finalmente me soltando.
— Para minha casa, oras! — respondi sem pensar.
Ele riu. Não um riso leve, mas um riso debochado, quase cruel.
— Sua casa? — repetiu, como se fosse uma piada. — Sinto muito em te informar, mas seus pais foram bem claros comigo: posso fazer o que quiser com você aqui. Eles não te querem mais de volta.
— O quê? — Minha voz saiu em um sussurro sufocado, sentindo o chão fugindo dos meus pés. — Você está mentindo…
Renato apenas deu de ombros, como quem dizia: “Acredite se quiser.”

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