Sara Lemos.
Enquanto eu torcia lençóis enormes e grossos nas mãos, não pude conter as lágrimas que caíam dos meus olhos. Ontem já havia sido o pior dia da minha vida, e agora o hoje se transformava num pesadelo. Eu nem fazia ideia de onde estava, muito menos de quando conseguiria sair dali.
Todos ao meu redor pareciam contra mim, como se eu fosse a vilã dessa história, quando a única culpada de tudo devia estar por aí, em algum lugar, aproveitando a vida com o amante e rindo do que aconteceu.
— Meu Deus… por favor, me ajude — murmurei.
O sol era de matar, e a fome apertava de um jeito que minhas pernas tremiam a todo momento. Eu já não havia comido bem ontem, e hoje pela manhã nem tive tempo de tocar na comida, já que aquela mulher apareceu no quarto disposta a me humilhar de qualquer forma. E ela estava conseguindo.
Tudo o que ela fez e disse me destruiu de um jeito que eu nem sabia como reagir.
Enquanto eu tentava me recompor, ouvi o som da porta se abrindo. Uma figura familiar entrou, carregando uma bandeja com comida: era Odete.
— Vim trazer algo para você, senhorita — disse ela, com voz baixa e cuidadosa. — Sei que ainda não teve tempo de se alimentar.
A visão da comida me trouxe um alívio momentâneo, mas a humilhação e o cansaço ainda pesavam sobre meus ombros.
— Obrigada… — murmurei, sem conseguir esconder a gratidão que senti por aquele gesto simples. — Desde que cheguei aqui, você foi a única que me tratou bem — confessei, pegando a bandeja de suas mãos.
Havia uma pequena mesa de madeira ao lado de uma das máquinas de lavar, então decidi me sentar ali para comer. Odete me acompanhou, sentando-se na cadeira à minha frente.
— Eu só estou fazendo o meu trabalho — disse ela, com simplicidade.
— De qualquer forma, eu te agradeço muito — falei, dando a primeira garfada.
Não sei se era a fome, mas a comida estava tão deliciosa que fui colocando um garfo após o outro na boca. Quando olhei para Odete, percebi que ela observava minha pressa e até se admirava.
— Me desculpe — pedi, tentando me recompor. — É que eu estava mesmo com fome.
— Não se preocupe comigo — disse Odete, abrindo um sorriso terno.
Ela realmente parecia uma boa pessoa. E, por mais que dissesse estar apenas cumprindo suas obrigações, eu sentia que havia algo genuíno em sua preocupação comigo, algo que, naquele lugar cheio de desprezo, se destacava como um pequeno refúgio de humanidade.
Quando eu estava quase terminando de comer, notei que Odete parecia querer dizer algo, mas se segurava. Então decidi iniciar a conversa.
— Tem algo a falar, Odete? — perguntei.
— Oh, não — disse ela, mexendo as mãos nervosamente.
— Como não? — perguntei, confusa.
— O senhor Renato saiu bem cedo e até agora não voltou. Creio que ele nem saiba o que está acontecendo nesta casa.
— Mas… — pensei um pouco, sabendo que, mesmo que ele não estivesse ali, poderia ter ditado à mãe como deveriam me tratar. — O fato de ele não estar aqui não anula o que está acontecendo. Aposto que pediu ajuda da mãe para me humilhar.
— Eu não acho que isso seja verdade — comentou Odete. — O senhor Renato não é um homem mau e, pelo tempo que trabalho aqui, nunca o vi tratar ninguém do modo como estão tratando você.
— Mas as coisas podem mudar, Odete — retruquei. — Ainda mais depois do que ele passou. Eu sei que, para ele, não passo de uma irmã de uma traidora. E tenho certeza de que, se puder fazer algo para acabar comigo e com a minha família, ele não vai medir esforços.
— Entendo o seu ponto de vista, senhorita, mas me ouça bem — disse Odete com doçura. — Aposto que, quando ele chegar e ficar ciente do que estão fazendo com você, vai acabar com tudo isso.
— Não acredito nisso — suspirei, cansada, lembrando de como ele me olhava com desprezo enquanto falava comigo.
De repente, a porta da lavanderia se abriu, e Constança apareceu, nos observando sentadas à mesa como se estivéssemos cometendo um crime.
— O que está acontecendo aqui? — disse ela, com a voz alta e autoritária. — Quem disse que você poderia se sentar? — disparou.
Rapidamente, eu me levantei, e meu olhar se alternou entre ela e Odete, que também se ergueu, com o semblante assustado.

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