Sara Lemos
A manhã de segunda havia finalmente chegado e, junto com ela, minha ansiedade estava a todo vapor. Seria naquele dia que Humberto me ajudaria a escapar dali.
Já fazia quase duas semanas que eu estava naquela casa, sendo tratada como um animal por Constança e Lorena. Mesmo sem ver Renato desde o dia em que cheguei, eu sabia que ele também estava por trás de tudo aquilo e com certeza se divertia com tudo. Era impossível acreditar que não soubesse o que acontecia comigo, e o simples fato de imaginar que ele apenas fingia ignorar a minha existência tornava tudo ainda pior.
Enquanto me arrumava, cada ruído da casa parecia um aviso, cada passo no corredor, uma ameaça. O medo e a esperança se misturavam dentro de mim, brigando pelo espaço no meu peito. E, embora quisesse acreditar que daria certo, uma parte de mim ainda duvidava que seria capaz de cruzar aquele portão sem que fosse pega.
Após me arrumar, peguei minha pequena carteira com os documentos e a escondi entre as roupas que vestia. O coração batia acelerado, como se soubesse que aquele dia seria diferente.
Saí do quarto e segui, como fazia todas as manhãs, em direção à cozinha dos empregados para tomar o café. Assim que entrei, senti os olhares atravessados. Algumas funcionárias, ao me verem, desviavam o rosto com desdém, e eu já nem me surpreendia. Sabia que boa parte do ódio que recebia vinha das mentiras de Constança, espalhadas como veneno por toda a casa.
Ciente de que nenhum “bom dia” seria correspondido, resolvi passar direto. Peguei uma caneca, me servi de café e sentei na única cadeira vazia da mesa. Uma das meninas mais novas, ao me ver ali, franziu o nariz e murmurou com sarcasmo:
— Que cheiro de porco…
As outras riram, cúmplices na crueldade. Eu respirei fundo, mantive o olhar fixo no prato e continuei comendo. Se tudo desse certo, aquela seria a última vez que eu veria aqueles rostos.
Foi então que a porta se abriu e Odete entrou na cozinha. Quando ela me viu, abriu um sorriso largo e veio em minha direção.
— Bom dia, Sara.
— Bom dia, Odete — respondi, tentando retribuir o mesmo tom animado.
Apesar de todos ali me olharem como se eu fosse um fardo, Odete era a única que ainda me dirigia palavras gentis. Havia algo nela que transmitia calma, talvez fosse o jeito simples, talvez a maneira como falava comigo sem medo de ser vista. Ela não me tratava com indiferença, nem com aquele desprezo que os outros faziam questão de demonstrar.
Quando terminei o café, levantei-me e saí dali, repetindo o mesmo trajeto de todos os dias, no entanto, o som de um motor ao longe quebrou o silêncio do pátio. Franzi o cenho. Era raro ouvir veículos chegando até ali, quase ninguém visitava aquele lugar isolado. A curiosidade falou mais alto que o meu bom senso, então caminhei até o canto da casa, de onde podia ver a entrada principal.
Poucos segundos depois, um carro luxuoso apareceu. Meu coração começou a bater descompassado. Fiquei escondida no canto da parede e observei a porta do veículo se abrir. Quando o vi descer, meu corpo inteiro gelou.

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