O caminho até a cidade seguiu em silêncio. Eu mantinha as mãos juntas no colo, olhando para frente, tentando não pensar demais. O carro avançava rápido pela estrada de terra, e o som dos pneus era a única coisa que quebrava o vazio entre nós.
Em alguns momentos, senti o olhar dele sobre mim, rápido, contido. Não virei o rosto. Preferi fingir que não percebia. Parte de mim ainda estava tensa pelo que aconteceu no quarto, outra apenas cansada de tudo.
Eu não confiava nele. Sabia disso. Mas também não podia negar que, naquele dia, ele havia sido diferente. Menos duro. Menos distante. Aquilo me confundia.
Respirei fundo e encostei a cabeça no banco, fechando os olhos por um instante. Tudo o que eu queria era resolver o que precisava ser resolvido, fazer meus óculos e ir embora dali. Voltar para minha vida. Para longe daquela casa, daquela família… e dele.
Mas, mesmo tentando me convencer disso, algo dentro de mim sabia que nada estava tão simples quanto eu queria acreditar.
O que aconteceria quando eu chegasse em casa? Como seria a minha vida depois daqueles dias fora? Como eu olharia para o rosto dos meus pais depois do que tiveram coragem de fazer comigo, só para protegerem a Raquel?
Para ser sincera, eu não queria voltar para casa. Aquele lugar também me fazia mal. Mas a verdade era simples e dura: eu não tinha opções.
Mais uma vez, minha mente foi até Humberto, e eu tentei repreender aquele pensamento. Ele só teria me levado para a casa dele por falta de opção, não porque realmente quisesse aquilo. Suspirei fundo, sentindo a cabeça latejar outra vez.
— Já estamos chegando — ouvi a voz de Renato.
— Para onde mesmo estamos indo? — questionei.
— A um oftalmologista — ele respondeu. — Já que vai fazer um óculos novo, é melhor passar por uma revisão antes.
— Tudo bem. — Respondi resignada, já sabendo que aquilo iria demorar, afinal minhas lentes eram raras e não ficariam prontas tão cedo.
Ao chegarmos ao local, Renato teve o mesmo cuidado de me guiar pelo caminho. Não demorou muito para o profissional chamar o meu nome. Entrei na sala e, para minha surpresa, Renato entrou junto comigo.
Antes de iniciar os exames, o médico fez algumas perguntas e, em seguida, me conduziu até os aparelhos.
Enquanto eu fazia os testes, percebia que Renato não tirava os olhos de mim, e aquilo me deixava realmente constrangida. Quando terminei, voltei a me sentar em frente à mesa do médico, que começou a falar.
— Bem, Sara, o seu grau é bastante avançado para a sua idade.
— Eu sei, doutor — respondi.
— E, sendo bem sincero, esteticamente, os óculos que você vai precisar usar não são exatamente os mais bonitos — comentou em tom bem-humorado.
— Também sei disso, doutor. Já me acostumei com os famosos fundos de garrafa — respondi, tentando entrar na brincadeira, embora tudo o que eu quisesse fosse que aquilo acabasse logo.
— Bem… — o médico ponderou.
Em seguida, estendeu a receita em minha direção. Antes que eu a pegasse, porém, acrescentou:

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