Sara Lemos.
Vi os olhos de Renato faiscarem como fogo. Eu sabia que não devia ter dito aquilo, mas ele apertava meu braço com tanta força que tive certeza de que, se não falasse a verdade naquele momento, as consequências mais uma vez recairiam sobre mim.
Quando terminei de responder, a pressão das mãos dele em meus braços diminuiu. Ele então se afastou, virou o rosto e ficou encarando a janela do lado do motorista, em silêncio.
Eu não o conhecia de verdade, mas sabia, naquele momento, que aquela frase o havia machucado profundamente. E eu culpava Raquel com todas as forças. Se Renato estava agindo daquela forma, era porque tinha sido ferido no lugar mais sensível possível.
— Como ela foi perversa… — ele murmurou depois de um tempo. — Agiu como uma verdadeira vagabunda.
Ele passou a despejar uma sequência de horrores contra ela, palavras carregadas de rancor e desprezo. Eu não disse nada. Nem quis, para ser sincera. O que Raquel havia feito não tinha justificativa alguma, e qualquer tentativa de defesa soaria vazia.
Depois de despejar sua raiva, ele se virou para mim e perguntou:
— Como acha que eu deveria me vingar dela, hein?
— E-eu… eu não sei — gaguejei, intimidada pelos olhos frios dele. — Você é um homem poderoso… devia apenas seguir a sua vida e deixá-la de lado.
Minha resposta saiu mais como uma tentativa de ganhar tempo do que como opinião. Eu só queria que aquela conversa acabasse antes que ele cruzasse um limite ainda maior.
— Deixá-la? — Ele zombou, rindo como se eu tivesse acabado de contar uma piada. — Eu não esperava uma resposta diferente vinda de você. Afinal, é a irmã dela. Claro que faria qualquer coisa para defendê-la.
— Você não sabe o que está dizendo! — protestei. — Eu não concordo com o que a minha irmã fez, está bem? Nunca defenderia um ato tão baixo quanto aquele.
Ele me olhou nos olhos, como se estivesse analisando cada palavra que eu dizia.
— Me diz uma coisa — começou ele. — Você me disse que você e a Raquel não se davam muito bem, certo?
— Não, não nos dávamos — respondi, desconfiada.
— Por quê?
— Porque a Raquel tinha vergonha de mim — expliquei, sem hesitar, mas com uma leve sensação de desconforto. — Ela me achava feia demais para ser apresentada como irmã — completei.
— Entendo… — ele murmurou. — Imagino que o que ela fez com você te deixava muito triste, não é?
— Não vou negar que me deixava, sim. Muito triste — admiti. — Mas era algo que eu não podia controlar.
Ele mordeu o lábio, pensativo, e então se aproximou um pouco mais de mim.
— Aposto que você também se sentia rejeitada, não é? — continuou. — Além da sua irmã, sua família também não ficava muito atrás. Afinal, quando fui até lá, seus pais não me disseram que tinham outra filha.
Engoli em seco. Não fazia ideia de onde aquela conversa queria chegar.
— Olha só… — ele se aproximou mais. — O que acha de se vingar da sua irmã ficando com o ex dela? Já parou para pensar no que a Raquel sentiria ao ver isso, hein?
Sem querer, a lembrança veio forte. Lembrei-me do dia em que minha irmã zombou de mim, dizendo que, se eu estava com pena do Renato, que fosse ficar no lugar dela.
Que ironia do destino.
No fim, foi exatamente isso que aconteceu.
— Eu não sei o que você planeja, mas eu não sou esse tipo de pessoa — respondi, tentando me afastar.
Antes que conseguisse, senti a mão de Renato firme em minha cintura, impedindo qualquer movimento.
— Não precisa me responder agora, Sara — disse em voz baixa. — Pense com calma. Se for esperta, vai perceber que estou fazendo por você mais do que toda a sua família jamais fez e, se me observar bem, pode acabar descobrindo que conseguimos nos divertir muito com isso.
A mão dele pressionou minha cintura, e senti o rosto dele se aproximar lentamente do meu. Meu coração disparou. Por um instante, tive certeza de que ele estava prestes a fazer exatamente o que eu temia ou talvez o que eu nem queria admitir que passava pela minha cabeça.
Mas, antes que eu pudesse reagir, ele se afastou de repente, abrindo apenas um sorriso contido, quase satisfeito, como se tivesse conseguido exatamente o efeito que queria.
— Você vai ter tempo para pensar nisso — concluiu. — Até o dia da sua cirurgia.
Fiquei ali, imóvel, com o coração acelerado, sabendo que aquela “escolha” já começava a me encurralar.

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