Não era preciso que nenhum deles se virasse para conhecer de quem era aquela voz. Renato estava ali, parado a poucos metros, os observando com o semblante fechado e os olhos atentos demais.
Humberto se afastou de imediato, erguendo as mãos num gesto defensivo.
— Nada demais, senhor — disse ele. — Eu só estava conversando com a Sara.
Renato não respondeu na hora. O olhar dele passou por Humberto, depois voltou para Sara, avaliando a cena em silêncio, como se estivesse montando um quebra-cabeça do qual não gostava do resultado.
— Já terminou? — perguntou por fim, seco, sem tirar os olhos de Sara.
— Sim, já terminamos — respondeu Humberto, mantendo a calma.
— Então, volte para o seu trabalho. — Renato retrucou. — Aposto que ainda tem muita coisa para fazer.
Humberto lançou um último olhar para Sara, silencioso, cheio de preocupação. Em seguida, apenas inclinou a cabeça em sinal de respeito e se afastou, empurrando o carrinho de mão de volta ao caminho por onde viera.
Assim que ele desapareceu, Renato avançou alguns passos, com o semblante fechado e a mandíbula tensa.
— Não sabia que você tinha tanta intimidade com os funcionários da casa — disse, em tom baixo, nada amigável.
— Não tenho intimidade com ninguém. Eu só converso com quem me trata bem — respondeu, firme.
— Percebi o quanto ele te trata bem — ironizou.
Virando-se para ele, ela franziu a testa.
— O que quer dizer com isso?
— Nada — respondeu, frio.
Percebendo que não havia mais nada a ser dito ali, ela decidiu sair. Deu um passo à frente, mas a mão de Renato segurou seu braço, impedindo-a de seguir.
— Não terminei — disse, em tom baixo.
Parando bruscamente, Sara sentiu o coração acelerar.
— Não quero mais te ver andando sozinha pela casa, muito menos conversando com funcionários homens — continuou.
— Eu não sou uma prisioneira — rebateu, tentando puxar o braço.
Ele afrouxou o aperto, mas não recuou.
— Como se sente? — perguntou Renato.
— Bem… Só um pouco cansada — respondeu Sara, tentando forçar um sorriso.
Renato observou-a por um momento, percebendo a vulnerabilidade dela naquele instante. Sem saber exatamente o que dizer, ele se limitou a permanecer ao seu lado.
O médico se aproximou dos dois, com a ficha nas mãos, e falou de forma calma e objetiva:
— O procedimento correu muito bem, Sara. Sua visão ainda vai ficar um pouco embaçada hoje, é normal. Pode sentir ardor, sensibilidade à luz e lacrimejamento nas próximas horas. Use os colírios conforme prescrito, não coce os olhos e evite sol, poeira e água nos olhos por alguns dias. Óculos escuros sempre que sair. Repouso hoje e retorno para avaliação amanhã.
Ela assentiu, absorvendo cada palavra.
— Qualquer desconforto fora do esperado, entre em contato imediatamente — concluiu o médico, antes de se afastar.
Liberada, Renato a ajudou a se levantar com cuidado e a conduziu até o carro. A luz do lado de fora parecia forte demais, e ele abriu a porta com atenção, guiando-a para que se sentasse com segurança. Antes de fechar a porta, ele inclinou-se um pouco mais perto e sussurrou em seu ouvido, baixo o suficiente para só ela ouvir:
— Já resolvemos o assunto dos óculos. Agora, os outros assuntos pendentes estão nas suas mãos.
Sara engoliu em seco. Mesmo com a visão ainda turva, entendeu perfeitamente o peso daquelas palavras.

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