Ele me olhava com um ar curioso. Acho que se surpreendeu ao me ver com aquele óculos de lentes tão grossas no rosto. Embora não dissesse nada, parecia mais calmo, no entanto, eu não o conhecia e nem sabia o que ele poderia estar pensando.
— Quer ajuda? — perguntou, com a voz calma demais.
Engoli em seco. Não sabia o que responder. Era evidente que eu precisava de ajuda… mas a dele? Justo dele? O que ele estava planejando?
— Eu… eu tranquei a porta — murmurei, tentando manter a compostura.
— Sim, eu sei. Mas eu a abri — disse, dando um passo à frente.
— Como fez isso?
— Essa casa é minha, Sara. Abro e fecho a porta que bem me entender — respondeu, com simplicidade, dando mais um passo.
Mais uma vez, meu corpo entrou em alerta. Meu instinto de defesa gritou dentro de mim.
— Nem pense em fazer isso de novo — ele advertiu, com a voz agora mais firme e grossa. — Não vou deixar passar novamente.
Aquela ameaça velada me fez congelar. E, para ser bem sincera, eu não sabia se teria coragem de enfrentá-lo outra vez. Agora que podia ver o rosto dele com nitidez… era ainda mais intimidador do que eu imaginava.
— Por favor… me deixe sozinha — pedi, com a voz trêmula.
— Não posso. Temos que sair logo.
— Sair? — perguntei, surpresa. — Para onde?
Ele sorriu. Um sorriso seco, debochado.
— Para a nossa lua de mel — zombou.
— Do que está falando? — Minha garganta chegou a queimar.
— Estou brincando — revelou. — Vamos para minha casa de campo.
— Eu não quero ir — disparei, num impulso.
— E você acha que tem escolha? — respondeu rápido demais, como se estivesse esperando exatamente por essa reação.
— Por favor… me deixa ir embora. Você já conseguiu o que queria. Uma noiva na igreja. Agora… me deixe voltar para casa.
— Acha mesmo que vai ser tão fácil assim?
— O que quer dizer com isso?
— Que eu não vou te deixar ir. Ainda mais depois do que a sua adorável família aprontou comigo.
— Eu não tenho culpa de nada…
— Que se dane! — rebateu. — Ainda vou encontrar alguma utilidade para você. Mas te deixar voltar para casa… isso não vai acontecer.
— Por favor… — supliquei mais uma vez, mas pelo olhar frio dele, ficou claro: ele não estava nem aí para o que eu sentia.
— Você tem duas opções — disse com dureza. — Ou me deixa te ajudar com esse vestido, ou vai sair de casa desse jeito mesmo.
O que seria pior?
Meu coração disparou outra vez. Eu estava com receio. Um medo real, quase paralisante. Mas eu sabia que precisava fazer algo. Não podia me jogar contra ele novamente… não naquele momento.
— Tudo bem — respondi, vencida. — Por favor… me ajude. Mas… não faça nada, além disso.
Ele se aproximou em silêncio.
Começou a desabotoar o vestido, botão por botão, com movimentos lentos. Cada toque, cada gesto dele me deixava tensa. A respiração quente dele roçava minha nuca, e isso me deixava ainda mais nervosa. Mas, infelizmente, eu não tinha escolha.
— Quantos anos você tem? — A voz dele ecoou perto do meu ouvido.
— Vinte — respondi.
Quando entrei na sala novamente, o olhar de Renato caiu sobre mim. Bastou um segundo para que a expressão de desgosto surgisse no rosto dele.
— Tire essa roupa. Agora mesmo! — ordenou, com a voz dura.
— Eu não vou fazer isso — respondi, sabendo que não havia outra opção naquela mala. — Eu não tenho outra roupa… minha mãe mandou a mala da Raquel.
— Como ousa desobedecer uma ordem minha?! — Ele se aproximou com o maxilar travado e os olhos faiscando. — Tire as roupas daquela desgraçada agora mesmo! — rosnou, já com as mãos prontas para rasgá-las do meu corpo.
— Eu não tenho outra roupa! — repeti, dando um passo para trás. — A única mala que me mandaram foi essa, eu… eu não tenho nada meu aqui!
Ele não parecia convencido. E pela expressão em seu rosto, eu soube: se eu não tirasse, ele perderia o controle.
Com um nó na garganta, fui até o lavabo novamente. Tirei a roupa rapidamente, tentando não pensar. Só queria uma saída.
Mas e depois? Eu não havia trazido a mala comigo.
Então, tive uma ideia. Abri as portas do armário do banheiro e, por sorte, encontrei um roupão. O vesti, respirei fundo e saí.
Precisava achar a mala. Talvez houvesse alguma peça ali que ele nunca tivesse visto Raquel usando. Alguma roupa que eu pudesse usar em paz.
Mas, assim que saí no corredor, um cheiro forte de fumaça me atingiu.
Corri até onde o cheiro vinha.
Meu coração congelou.
Renato estava no quintal, de pé, impassível, vendo a mala e as roupas pegarem fogo. Todas. Cada peça da mala estava ali. Queimando.
— O que você está fazendo?! — gritei, quase sem ar.
Ele não respondeu. Só ficou ali, de braços cruzados, me ignorando como se eu nem estivesse ali.
E agora… o que iria vestir?

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