Como a vida precisava seguir em frente, Renato tirou a tarde para se reunir com alguns funcionários e resolver assuntos pendentes da empresa. Foram horas de números, relatórios e decisões que exigiam atenção, mas, mesmo assim, sua mente insistia em escapar em alguns momentos.
Quando a reunião terminou, um dos acionistas o convidou para beber algo.
— Vamos esfriar a cabeça — disse, num tom casual. — Você anda tenso demais.
Sem pensar duas vezes, ele aceitou, já que não queria voltar cedo para casa.
O bar era discreto, pouco movimentado. Sentaram-se em uma mesa mais afastada, pediram bebidas e começaram a conversar sobre coisas banais: negócios, viagens, oportunidades futuras. Renato respondia no automático, rindo quando esperado, concordando quando necessário.
Mas, em meio a uma frase e outra, a imagem de Sara surgia sem aviso.
— Você está longe hoje — comentou o acionista, quebrando seus pensamentos. — Aconteceu alguma coisa?
— Nada demais — respondeu, levando o copo à boca. — Só cansaço.
A bebida desceu amarga. Não era só cansaço. Era a sensação incômoda de que voltar para casa não significava apenas descanso. Significava confronto.
— E como está o casamento? — O homem perguntou, apoiando o copo na mesa.
— Bem — ele respondeu de imediato.
A palavra saiu rápida demais, automática. Ele levou a bebida à boca logo em seguida, como se o gesto pudesse encerrar o assunto.
O acionista arqueou levemente a sobrancelha, percebendo a resposta curta.
— Que bom — comentou. — Casamento muda muita coisa.
Soltando um sorriso sem humor, comentou.
— Muda mesmo — concordou, sem muita convicção.
A conversa seguiu, mas Renato já não estava inteiro ali. A pergunta simples havia aberto um incômodo que ele preferia manter fechado. Dizer que estava tudo bem era mais fácil do que explicar o que nem ele conseguia nomear.
Terminou a bebida e pousou o copo sobre a mesa.
— Acho que já deu por hoje — disse, levantando-se. — Amanhã vai ser um dia longo.
O acionista assentiu, sem insistir.
No caminho de volta, enquanto dirigia pela estrada deserta, Renato percebeu que havia um veículo atrás dele. No início, tentou ignorar, mas o incômodo cresceu. Desconfiado, acelerou um pouco mais. O carro atrás fez o mesmo.
O alerta veio imediatamente.
Apertou o volante com força e tentou ganhar distância, mas logo percebeu o problema: estava em um trecho de difícil acesso, estreito, sem acostamento e sem possibilidade de retorno. A estrada seguia em linha reta, cercada por mato alto.
O carro se aproximou rápido demais. De repente, o emparelhou e o fechou bruscamente.
— Merda… — murmurou, pisando no freio.
Antes que pudesse reagir, duas portas se abriram e dois homens desceram armados.
Os tiros começaram sem aviso.



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