Não sabia quanto tempo ficamos ali.
O tempo dentro daquele quarto funcionava de forma estranha — sem janela para ver o sol, sem celular, sem nada que marcasse a passagem das horas além da fome crescendo e da lâmpada continuando a piscar no teto com aquela intermitência irritante de coisa que se recusa a morrer de vez. Em algum momento eu e Alícia tínhamos simplesmente parado de lutar contra o silêncio e ficado deitadas cada uma do seu lado da cama, olhando para o teto. Trocávamos uma ou outra ironia quando o quieto ficava pesado demais. Nenhuma das duas tentava fingir que estava bem.
Então alguém enfiou pela porta dois pães duros com frios e dois copos de suco de laranja.
Caí em cima do meu imediatamente, devorando com aquela urgência de quem não come desde o início da manhã e cujo estômago grávido tinha opinião própria sobre o assunto. O pão era duro, os frios eram passados, o suco era de caixinha. Era a melhor coisa que eu comia em horas. Tá, na verdade, era a única, mas, ainda assim... era a melhor.
Alícia ficou só me observando por um instante.
— O quê? — perguntei, ainda com a boca cheia.
— Nada. — Ela inclinou levemente a cabeça. — Só esperando pra ver se isso não vai te matar. Vai que está envenenado.
Ri abertamente, e a risada doeu um pouco na cabeça ainda latejante.
— Como se você fosse sobreviver a isso sem minha ajuda.
— Como se eu fosse sobreviver a isso com a sua ajuda — ela retrucou, mas pegou o próprio pão e deu uma mordida pequena e cuidadosa, como quem está testando a situação antes de se comprometer com ela.
Ficamos em silêncio por um momento, mastigando.
— Você não está realmente grávida, está?
Olhei para ela.
— Doze semanas.
A verdade saiu sem que eu planejasse. Talvez porque estivesse entalada há tempo demais, acumulando camadas desde o hospital, desde o cofre da Genevieve, desde o restaurante. Talvez porque a única pessoa que sabia além de mim estava provavelmente ainda naquela salinha com o meu marido, o que tornava a Alícia, por pior que fosse a alternativa, literalmente a única opção disponível para ouvir meu desabafo. Talvez porque eu achasse que ia morrer ali de qualquer jeito, e morrer com um segredo a menos parecia levemente melhor do que morrer carregando todos eles de uma vez.
Alícia ficou me olhando por um segundo. Depois estendeu o próprio pão na minha direção com uma naturalidade de quem tomou uma decisão e não quer fazer cerimônia em cima dela.
Parei de mastigar.
— Ainda não se convenceu que não está envenenado? — perguntei, sem pegar.
— Você está comendo por dois.
Fiquei parada por um instante que foi mais longo do que devia. Aquilo não era o tipo de gesto que eu esperaria de Alícia Lacerda em nenhuma circunstância imaginável. Não dentro daquele quarto, não naquela situação, não comigo. E ainda assim ela estava com o pão estendido, esperando, sem fazer drama nenhum em cima disso.
— E você está comendo por um — respondi, dando de ombros. — Não consigo te carregar nas costas para fora daqui, então come.
Ela demorou alguns segundos, mas recolheu o pão de volta com um gesto mínimo de cabeça e deu mais uma mordida.
— Arthur não sabe. — As palavras saíram dos meus lábios antes que eu decidisse soltá-las. — Que estou grávida. Ele não sabe.
Alícia não parou de mastigar, mas ergueu os olhos.
— Por quê?
Dei de ombros.
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