Arthur olhou para o envelope por um segundo longo demais.
— Se esse resultado for negativo — ele disse, com a voz baixa e muito calma —, o nosso acordo está desfeito. Você sai daqui com uma mão na frente e outra atrás.
Eu já pensei sobre isso. De verdade parei e pensei, porque eu precisava daquele dinheiro de um jeito que ele provavelmente nunca precisou de nada na vida.
Mas então me dei conta.
— Já estou aqui — falei. — Já quebrei o acordo.
— Posso te dar uma nova chance.
— Ela é a neta do Augusto?
Geórgia tinha se aproximado sem eu perceber e olhava para o envelope com os olhos arregalados.
— A que ele vem procurando há anos?
— Não — Arthur respondeu, seco.
— Ele vinha... me procurando? — me virei para a menina.
— Ele é simplesmente obcecado com essa neta. Disse que estava perto, mas eu não imaginei que...
— Geórgia. — A voz de Arthur cortou o ar. — Cala a boca. Isso é conversa de adulto.
— Eu sou adulta!
Olhei para ela. Devia ter algo em torno de dezesseis ou dezessete anos, aquela idade específica em que a pessoa insiste que é adulta exatamente porque ainda não é. E que deveria aproveitar ainda não ser. Eu me tornei adulta muito antes disso, e sem aviso prévio. Não tinha sido nada legal.
— E acho — ela continuou, encarando o irmão sem piscar — que você é quem está sendo criança ao tirar a chance dele de saber se essa moça é realmente a neta dele.
Arthur a olhou por um momento. Depois olhou para mim. Depois começou a caminhar pelo corredor sem dizer mais nada.
— Nossos pais deveriam ter parado em mim — murmurou, enquanto andava.
Geórgia se permitiu uma gargalhada.
— Você diz isso, mas ama sua irmãzinha aqui — Geórgia foi atrás dele, e eu atrás dela.
— É, vai achando.
Ela me deu uma piscadinha lateral sem virar o rosto, tão rápido que eu quase perdi. Sorri antes de conseguir me controlar. Ela dava a impressão de ser alguém fácil de gostar. Muito mais fácil do que o irmão.
O escritório do senhor Augusto era o tipo de cômodo que faz você parar na porta por um segundo só para admirar. Não era só um escritório, era praticamente uma biblioteca com uma mesa no meio, com estantes do chão ao teto e aquele cheiro específico de livro velho que ou você ama ou você não entende. Eu amava.
Ele estava de costas para nós quando entramos, mas virou assim que ouviu os passos e veio na minha direção com uma energia que não combinava com alguém da sua idade.
— Por um momento achei que você não voltaria — ele disse, me abraçando antes que eu pudesse me preparar para ser abraçada.
Fiquei com os braços parados por um segundo enquanto sentia um aperto no peito porque eu realmente não pretendia voltar. Mas às vezes aquela parte de nós que fica remoendo um “e se” fala alto demais para ser ignorada.
Me afastei com cuidado e disse que tinha algo importante para falar. Ele pediu que nos sentássemos, e fomos até a mesa grande no centro do cômodo.
Éramos um grupo estranho, não dava para negar. Augusto sorridente. Geórgia parecia curiosa e se inclinou um pouco para a frente. Arthur de braços cruzados e expressão de alguém que preferia estar em qualquer outro lugar. E eu, com o envelope nas mãos e o coração fazendo barulho suficiente para me incomodar.
— Eu fiquei tão nervosa quando entrei nessa casa — comecei, escolhendo as palavras com um cuidado que não era costume meu — que acho que talvez... talvez estivesse imaginando coisas. Vendo minha mãe naquela foto porque queria ver. Entrando na sua fantasia sem perceber.
— Não tenho fantasia nenhuma — Augusto me interrompeu, com uma firmeza tranquila. — Maria Helena era minha filha. E você é minha neta. Não tenho dúvidas disso.
Maria Helena.
Algo virou no meu estômago de um jeito desconfortável.

VERIFYCAPTCHA_LABEL
Comentários
Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO