Dois dias depois, me mudei oficialmente para a mansão.
Cheguei com uma mochila nas costas e duas sacolas reutilizáveis de mercado, uma em cada mão. Dona Carmem abriu a porta, olhou para o que eu trazia, olhou para mim e, com toda aquela delicadeza profissional, perguntou meio confusa:
— Onde está o restante, senhorita?
— O Arthur disse que eu não precisava trazer os móveis.
Ela deu uma risada. Uma risada discreta e bem-educada, típica de quem achava que tinha escutado uma piada.
Não era piada.
Eu tinha mesmo perguntando o que faria com meu sofá e minha geladeira e ouvido de Arthur que eu podia vender, doar ou incendiar tudo, desde que não achasse que aquelas coisas dignas de um museu de horrores dos anos 70 iam entrar na casa dele.
— Venha — ela disse, se recompondo. —Vou mostrar seu quarto.
Eu conhecia o quarto. Tinha visto no primeiro dia, aquele cômodo parado no tempo com o berço e as roupinhas dobradas e o cheiro de espera. Mas o que Augusto tinha me dito que faria, ele tinha feito, e o que eu encontrei quando Dona Carmem abriu a porta não tinha nada do lugar que eu tinha visto antes.
O quarto era enorme, com o teto bem alto e pintura recém-feita. As janelas era largas e davam para o jardim dos fundos e a cama parecia digna de uma princesa. Ali, tinha tudo que eu podia sonhar precisar. E também, o que eu nem me dignava a sonhar, que era a maior parte, na verdade.
— Você precisa de ajuda para organizar as coisas, senhorita?
— Não, obrigada. Tenho poucas coisas. Posso me virar.
Ela saiu apressada. Eu diria que quase aliviada.
Abri a mochila em cima da cama e comecei. O closet era do tamanho da minha casa anterior inteira. Talvez maior. Com aquelas divisórias todas e cabides de madeira e iluminação própria como se as roupas precisassem de cenário. Fui pendurado o que eu tinha, peça por peça, e assistindo o closet continuar vazio enquanto eu terminava.
As minhas roupas ficaram lá dentro com aquele aspecto de coisa fora do lugar. Tecido ruim em cabide bom. A combinação não funcionava visualmente, e eu sabia disso. Fiquei olhando para aquilo por um segundo a mais do que precisava.
— Nem eu pertenço aqui — murmurei, para o closet.
A porta se abriu sem uma batida prévia.
Geórgia entrou sorridente, como se fossemos velhas amigas que não precisavam de protocolos sociais. Atravessou o quarto em passos largos e me abraçou antes que eu pudesse me preparar para ser abraçada. Fiquei com os braços, dura.
— Finalmente outra garota nessa casa! — ela anunciou com uma satisfação genuína.
Me afastei rindo.
— Não tem tipo... umas mil mulheres aqui?
— As funcionárias não contam.
— E as que seu irmão traz?
Ela fez uma careta rápida, meio sem graça.
— Er... sobre isso. Me desculpa por... você sabe! Mas, bom, vocês vão se casar agora, não vão?


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