~ GEÓRGIA ~
Fiquei ali, agachada, ouvindo os passos da Genevieve se afastando pela sala e depois o som da porta se fechando atrás dela. Leonora continuava. Eu conseguia ouvi-la se mexer levemente no sofá, o farfalhar de tecido, aquela presença que preenchia o ambiente de um jeito que tornava impossível respirar fundo.
Então o celular dela tocou.
— Leonora falando. — A voz saiu com uma objetividade seca. Fiquei completamente imóvel, tentando ouvir sem respirar ruidosamente. Eu não conseguia escutar o outro lado, claro. Mas dava para ter uma noção pelo ritmo das pausas dela, pela qualidade do silêncio que ela mantinha enquanto ouvia. — Sim. — Uma pausa. — Ela está a caminho. Vai realizar a primeira parte do plano. — Mais uma pausa. — Eliminar a favelada, claro. Ah, eu adoro essa menina Genevieve, fazendo tudo por amor. Bem, se as coisas derem errado vão cair nas costas dela. Quem acreditaria que eu estou envolvida?
Outro silêncio.
— Depois? Depois vamos ter que lidar com o Arthur. Conheço bem aquele lá, não vai ficar quieto vendo a esposa e o filho morrerem e ainda perdendo sua fortuna e o hospital. O ideal seria eliminá-lo logo também. Quais as chances da cirurgia dar errado? — Uma pausa mais longa. — Trinta por cento não é bom o suficiente para mim. Faça ser cem.
O telefone foi desligado.
Sem agradecimento. Sem despedida. Só mais um nome sendo adicionado à lista de coisas que a Leonora pretendia eliminar com a mesma displicência com que outra pessoa cancelaria uma reserva de restaurante.
E aquele nome... era do meu irmão.
Céus. Quem era aquela mulher? Ela lidava com tudo e todos assim? Simplesmente tirando da vida dela da forma mais definitiva possível qualquer pessoa que representasse um obstáculo?
Ouvi o tilidar de um copo. Bebida sendo servida. Leonora se acomodando novamente no sofá com aquela calma de quem terminou o trabalho do dia e agora só espera os resultados chegarem.
Eu estava perdendo tempo presa ali.
Precisava agir, precisava fazer alguma coisa, mas a Leonora podia ficar naquele sofá o resto da tarde se quisesse — e se ficasse, a Genevieve chegaria ao hospital e faria o que tinha ido fazer antes que eu pudesse impedir qualquer coisa.
O celular.
Estava no bolso do meu jeans desde antes de entrar na sala de música. Tirei devagar e mandei uma mensagem para a Dona Carmem.
“Preciso de ajuda URGENTE! Por favor, tire a Leonora da sala de música.”
A mensagem foi visualizada quase na mesma hora. A Carmem tinha me visto crescer. Tinha me dado mais atenção do que minha mãe em várias fases da vida, do tipo de atenção silenciosa que aparece quando alguém realmente observa uma criança, não só está presente. Eu sabia que ela responderia.
Poucos instantes depois, uma batida na porta.
— Desculpe, senhora. — A voz da Carmem, aquela voz que eu conhecia desde que conseguia me lembrar de qualquer coisa. — Mas tem um telefone no número fixo para a senhora. Não quiseram se identificar, mas disseram ser importante.
— E cadê o telefone? — A Leonora perguntou, seca.
— O sinal não alcança a mansão inteira. Talvez queira atender no escritório do senhor... — Uma pausa mínima. — Digo, no seu escritório.


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