O carro se movia e eu tentava acompanhar. Não o carro em si, o mundo. Que estava voltando em pedaços, como sinal de rádio captado aos poucos depois de muito estático: primeiro as formas sem nitidez, depois as cores voltando, depois os sons chegando no volume certo, depois o pensamento ganhando mais velocidade. O sedativo estava perdendo efeito, e meu corpo ia acordando camada por camada com lentidão, recuperando o terreno com a cautela de quem não sabe ainda o que vai encontrar quando chegar lá.
Conseguia ver a Alícia no banco do motorista. A Geórgia no passageiro. O asfalto passando pela janela. Uma cidade normal com pessoas normais fazendo coisas normais, completamente alheia ao fato de que nas últimas horas eu tinha estado em um quarto de hospital com uma mulher tentando me matar enquanto meu marido estava numa cirurgia de emergência alguns andares acima.
A vida seguia. Ela sempre seguia.
A Geórgia virou do banco do passageiro e me estendeu uma garrafa de água sem dizer nada. Peguei e bebi até o fim praticamente em uma golada só.
— Arthur. — Falei, quando terminei. — Como ele está? Sem mentiras. Eu aguento a verdade.
— Aparentemente — a Geórgia começou, com aquela hesitação de quem está calibrando o quanto revelar — por mais que ninguém tenha me contado direito, você está grávida e...
— E medicada. — Interrompi. — Não vou surtar. Aliás, vou. Se vocês não me contarem a verdade.
— A verdade é que a gente não sabe. — Alícia falou do banco do motorista, sem rodeios e sem olhar para o espelho retrovisor. — A última informação que tive é que ele estava estável. Mantido em coma induzido para controlar a dor e reduzir o esforço do organismo enquanto se recupera. As próximas horas vão definir se há complicações que não apareceram durante a cirurgia. — Uma pausa curta. — Satisfeita agora? — Havia uma irritação contida na voz dela. — Não tem nada que você possa fazer a respeito, Zara. Então ao menos tenta não ser um problema com o qual a gente precise lidar agora também.
— Uau. — Geórgia olhou para a Alícia uma expressão de quem não sabe se ficou chocada ou impressionada. — Ela é sempre assim tão...?
— Filha da puta? — Completei. — É, é sim. — Fiz uma pausa rápida antes de me voltar para Alícia. — Alícia, para o carro.
— O quê? — Ela soou como quem ouviu, mas não assimilou.
— Para o carro. Agora!
Um suspiro fundo. Mas ela obedeceu e o carro desacelerou e estacionou no primeiro lugar que apareceu.
Desci primeiro. As pernas protestaram nos primeiros passos com aquela fraqueza residual que o corpo mantém depois da sedação, como se os músculos precisassem de um momento para lembrar que eram para ser usados. Contornei o carro pelo lado de fora, fui até a porta do motorista e abri.
— Desce.
— Eu não vou...
— Desce!
Um olhar. Depois ela desceu.
E antes que ela terminasse de processar o movimento, a puxei para um abraço.
Não foi planejado. Foi o tipo de coisa que o corpo faz antes que a cabeça dê a instrução.
Então senti ela desabar.


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Os comentários dos leitores sobre o romance: INVENTEI UM NAMORADO E ELE ERA MEU NOIVO BILIONÁRIO