Favelada?
Favelada?
Ah, aquele idiota ia ver só a favelada!
Quero dizer... não que eu não fosse. Não que eu não tivesse aprendido a viver naquela vida, e pra isso tivesse que desenvolver certos... truques. Certas formas de sobreviver e me virar que uma pessoa nascida em berço de ouro nunca precisou aprender. Eu sabia negociar o fiado no mercadinho. Sabia qual horário o ônibus atrasava mais. Sabia exatamente quantos bicos precisava fazer para pagar o aluguel, a faculdade e ainda comer algo que não fosse miojo três vezes por semana. Sabia também em qual esquina não virar depois das nove, qual barulho era rojão e qual não era, e como andar olhando pra frente sem parecer que estava com medo mesmo quando estava. Era o que eu chamava de curso acelerado de vida real que nenhuma universidade oferecia.
— Relaxa, você está linda — Geórgia murmurou ao meu lado enquanto descíamos as escadas.
Tinha passado a tarde toda com o senh... com meu avô. Ainda era estranho pensar nele assim, mas segundo ele, era mais estranho que eu o chamasse de senhor. Então caímos num meio termo: só Augusto, ou vô, quando eu conseguia. O que não era sempre, porque a palavra ainda emperrava na garganta.
E, pra ser honesta, ele era uma pessoa incrível. Lúcido demais para os seus 87 anos, ainda muito envolvido nos negócios, mas ao mesmo tempo carregando aquela preocupação de quem sabe que não tem mais todo o tempo do mundo pela frente. Ele me contou que tinha dedicado os últimos anos inteiros a me procurar porque precisava deixar seu legado para a família.
Lembrei dele dizendo que amava Arthur, mas que o garoto era muito focado em dinheiro, números e negócios.
— Eu precisava de alguém que fosse mais coração ao lado dele — ele tinha dito.
— E como o senhor sabia que eu seria essa pessoa?
Ele tinha sorrido daquele jeito dele, paciente e certo de si.
— Ou então você não seria filha da sua mãe. Aposto que ela te criou assim. E quando você me salvou naquele lago, eu tive certeza.
Mas se Augusto estava certo sobre alguma coisa, era que o homem parado lá embaixo, esperando que eu terminasse de descer as escadas e me olhando como se eu fosse uma falha na Matrix, tinha tudo, menos coração.
— Eu estou de jeans e camiseta — murmurei para Geórgia — e todo mundo parece que está indo para um casamento.
— Sinto muito que minhas roupas não caibam em você.
Nem de longe. E nós tínhamos tentado. Mas além de Geórgia ter dezessete anos, ela era magra de um jeito que só ricas conseguem ser magras sem parecerem subnutridas, mas sim ridiculamente elegantes, como se a magreza fosse um acessório de grife.
— Podemos sair para fazer compras amanhã, se você estiver livre — ela disse. — Augusto se precipitou em marcar esse jantar tão em cima da hora.
Se precipitou mesmo. Porque eu estava morrendo de medo de ser jogada aos leões sem armadura, manual de instruções ou ao menos um par de sapatos que não fosse tênis.
Quando chegamos ao fim das escadas, Arthur nos aguardava. Olhou para mim de cima a baixo com uma expressão que eu já conhecia bem e que basicamente dizia tudo sem precisar de palavras.
— Você só pode estar brincando.
— Bom, não estou.
Ele suspirou, revirando os olhos com uma maestria desnecessária, e simplesmente deu as costas para mim.
— Deixa comigo. Eu te apresento pra todo mundo — Geórgia me incentivou, sorridente.
— Tem certeza? Talvez eu não devesse...
— Zara. — Ela parou e me olhou com sinceridade. — Essa festa é pra você. Você é Zara Altieri, a neta de Augusto Altieri. Uma das mulheres mais influentes da elite carioca a partir de hoje. Se você disser que calça jeans é moda em eventos sociais, amanhã todo mundo vai estar de calça jeans em eventos sociais.
Tá bom. Aquilo me deu um ânimo.
Por exatos trinta segundos.
Porque quando entrei no salão, entendi três coisas que eu ainda não sabia.
Primeira: quando rico diz reuniãozinha para os mais próximos, não é uma reuniãozinha para os mais próximos. Era um salão inteiro de gente impecavelmente vestida.

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