— Você é louca! — A voz da Genevieve falhou no meio da frase. — Me solta!
Ela tentou se defender, afastar minhas mãos do pescoço com a mão boa. Mas não conseguia se levantar, e com apenas um lado do corpo respondendo direito, a luta dela era perdida desde o começo. O lado esquerdo ficou onde estava, sem obedecer.
— Zara! Zara! — A voz do Arthur veio do celular no colo dela. — O que está acontecendo aí?
Fiquei mais três segundos antes de soltar. Depois recuei um passo e a encarei.
Não foi premeditado. Ou talvez fosse, em algum lugar que eu não estava monitorando conscientemente — aquela raiva que tinha ficado acumulada desde o hospital, desde o quarto 214, desde antes disso, desde cada vez que a Genevieve tinha sorrido para mim como amiga enquanto estava fazendo outra coisa completamente. Saiu de uma vez, e saiu ali.
— Nada. — Respondi, ainda olhando para ela. — Só queria ver o medo nos olhos dela. É meio que bonito. Era assim que eu estava naquela cama?
— Louca! — Ela levou a mão boa para a garganta e começou a massagear, ainda tentando recuperar o ar. — Você não pode entrar aqui e me acusar de coisas assim. Precisa provar. Ou posso te processar e te destruir.
— Pode fazer o que quiser. Mas admite. Admite que vocês mataram meu avô.
— Eu não sei de nada disso! — A voz saiu ainda crispada do esforço. — Eu gostava dele. Gostava do senhor Augusto.
— Bom. Você também dizia gostar de mim.
— É diferente. Você precisava sair do caminho para que eu ficasse com o Arthur. Mas jamais faria mal a alguém com quem ele se importava tanto quanto com o senhor Augusto.
— Ele se importa comigo! Se importa com essa criança que está aqui dentro!
— Já disse que é diferente. — Ela repetiu, e havia algo no tom que deixa transparecer uma convicção real, do tipo que só existe quando a pessoa acreditou naquilo por tempo suficiente para parar de questionar. Como se ela tivesse construído aquela narrativa tijolo por tijolo ao longo de anos e agora vivesse dentro dela. — Com você e esse bebê, ele teria que superar. Não é como se você estivesse na vida dele há tempo suficiente para se tornar insubstituível. Eu estou há anos. Eu conheço cada parte dele que você nunca vai conhecer. Eu estava lá antes de você e estarei depois.
— Não acredito em você. — Disse, ignorando tudo o que ela disse sobre Arthur. — Não acredito que não está envolvida na morte do meu avô.
— Estou pouco me fodendo para o que você acredita. Sabe por que, Zara? Porque você é um serzinho insignificante no meu caminho. Não ligo para você a ponto de me importar, e não ligo a ponto de temer.
Mas teme a Leonora.
Eu sabia disso. Ela sabia exatamente do que a Leonora era capaz, e esse medo estava em todos os silêncios que ela tinha dado naquela conversa, em todas as vezes que ela tinha calculado quanto dizer antes de continuar.
— Arthur. — Ela voltou para o telefone, a voz mudando um pouco. — Você precisa acreditar em mim. Eu não fiz isso. Não tenho nada a ver com a morte do senhor Augusto. Eu não ia te machucar assim.

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