Minha risada curta que saiu antes que eu decidisse se era apropriada.
— Alicia, você é ridícula.
— Sou? — Ela inclinou a cabeça, me observando com aquele seu olhar típico de quem achava que sempre ganhava tudo. — Porque me parece que eu tenho uma informação muito interessante nas mãos.
— Fala o que você quiser. Não muda o fato de que aquele teste é verdadeiro.
— Tão verdadeiro quanto o namorado que você inventou?
Ri de novo, dessa vez com mais vontade.
— Meu namorado. — Parei. — Na verdade, meu noivo. É Arthur Sartori. E logo todo mundo vai saber disso.
Dava para ver em seu rosto uma mistura de inveja e ódio que entregava que ela sabia que, agora, eu tinha ficado maior do que ela esperava. Mas ela não ia me deixar pensar isso, claro.
— Não é porque você é neta do Altieri que você está nesse nível, Zara. — A voz dela ficou baixa, agressiva, como se ela finalmente fosse falar o que queria e não o que permitiam. — Você é tão puta quanto a sua mãe foi.
O salão continuou acontecendo ao redor de nós. Música, conversa, gente rindo. Mas eu... eu só consegui sentir o meu corpo tremendo inteiro enquanto a raiva ia nascendo de um lugar muito fundo e crescendo, crescendo e crescendo até explodir.
— Não fala da minha mãe — disse, e a voz saiu mais calma do que eu esperava, o que era perigoso. — Cala essa boca.
— Ou o quê?
— Ou eu te faço calar.
Ela riu e deu um passo para trás, os olhos varrendo o salão ao redor de nós, certa de que eu não faria nada na frente daquelas pessoas.
Mas eu fiz.
Enfiei o pedaço de mini cachorro-quente que ainda tinha nas mãos inteiro dentro daquela boca e apertei.
— Fala agora. Fala da minha mãe agora!
Alicia arregalou os olhos numa expressão que eu nunca tinha visto nela antes e que eu poderia descrever como pânico absoluto. Ela não sabia se comia, se cuspia ou se saía correndo. Eu mantive a pressão por mais um segundo só para garantir o efeito pedagógico.
Foi quando uma mão fechou no meu braço.
— O que está acontecendo aqui?
Arthur. Claro que era Arthur. Voz baixa, controlada, o tipo de tom que significa que a situação é grave demais para gritar.
Alicia aproveitou o momento de distração para tomar a decisão de cuspir o cachorro-quente em um guardanapo. A boca dela, porém, continuava vermelha de molho quando ela endireitou os ombros e anunciou, com lágrimas que apareceram rápido demais para serem reais:
— Essa garota é louca. Completamente louca.
E saiu.
Eu sabia que estava encrencada, mas... foda-se. Mas do que encrencada eu estava era satisfeita.
Arthur me soltou o braço e se virou para mim com uma de quem está fazendo um esforço ativo para não explodir.
— Foi isso que eu quis dizer com...
— Favelada? — interrompi. — É, eu sei. Mas ela me ofendeu. Ofendeu minha mãe.
— Ninguém liga.
— Mas ela...
— Ninguém liga! — Ele repetiu. Baixo, mas com uma força que cortou qualquer coisa que eu fosse responder. — Todo mundo só liga para o fato de que a neta do Augusto Altieri está nessa sala de jeans e camiseta, falando alto e atacando uma convidada com cachorro-quente. É essa a imagem que você quer passar?
— Bem, essa sou eu.

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