Em vinte minutos, eu já tinha conseguido me livrar de todo mundo, o que era uma conquista muito grande visto que todos queria não só me conhecer, mas puxar conversas completamente cansativas.
Eu saí do salão principal pela primeira porta lateral que eu encontrei e comecei a caminhar pelo corredor sem saber para onde ir, só precisando de um lugar onde ninguém me olhasse. Precisava de silêncio.
Cheguei a uma varanda longa que dava para o jardim, com as pilastras grossas típicas de uma mansão antiga espalhadas ao longo do ambiente. Apoiei os cotovelos na grade e fiquei olhando para as luzes do jardim lá embaixo, tentando deixar o ar entrar nos meus pulmões de um jeito que me acalmasse um pouco.
Foi quando eu percebi que, se eu me espremesse entre a pilastra e a parede, consegui passar para uma parte da varanda que ficava totalmente escondida. E lá dentro, como se alguém tivesse planejado aquilo, havia um banco de jardim.
Um esconderijo perfeito.
Me espremei, me sentei, e fechei os olhos por um segundo.
Eu não era uma pessoa hipócrita. Não ia reclamar de nada daquilo. Enfrentar a Alicia e aguentar os olhares tortos de um salão cheio de gente rica não era nada. Não era nada comparado a passar uma noite no chão de um banheiro, com o tiroteio do lado de fora e o estômago roncando de fome. Eu sabia disso. Tinha sentido isso na pele mais de uma vez.
Mas também não podia fingir que aquele mundo não exigia uma energia que eu ainda não sabia muito bem como entregar. Na favela eu sabia as regras. Sabia o que podia e o que não podia, quem cumprimentar e quem evitar, como se mover. Aqui as regras existiam do mesmo jeito, só que ninguém as escrevia em lugar nenhum e todo mundo esperava que você já soubesse.
— Ah, ótimo! Você encontrou meu esconderijo.
Eu abri os olhos.
Arthur estava se espremendo entre a pilastra com uma expressão de quem não esperava encontrar ninguém ali e não estava particularmente feliz em ter encontrado. Com aqueles ombros largos, a operação exigiu um esforço que ele claramente preferia não estar fazendo de terno
Não que eu estivesse reparando nisso. Não mesmo.
— Tudo bem — eu falei, enquanto me levantava. — Eu já estava de saída.
— Vodka?
Parei e me larguei no banco novamente.
Ele tirou um cantil do bolso interno do blazer e me ofereceu com a naturalidade de quem oferece um chiclete.
— O quê?
Ele não repetiu. Apenas pegou a minha taça de champanhe, a taça que eu tinha carregado sem beber, e virou um pouco do líquido dentro dela. Depois, fez o mesmo na própria taça e bebeu uma golada demorada.
Bebi também.
O erro foi imediato e invisível. A vodka desceu com uma suavidade traiçoeira que não se parecia nenhum pouco com as cachaças que eu conhecia, e eu entendi tarde demais que suave não significava fraca. Significava cara.
— Eu odeio tudo isso — eu ouvi a minha própria voz dizer, antes de decidir se era uma boa ideia.
— Tente estar no meu lugar.
— Ah, claro. O pobre menino rico nascido em berço de ouro e tem um império para herdar.
Ele me olhou por um segundo.
— Troque por menina rica e poderia ser você.
Eu me calei. Não porque ele tivesse razão, mas porque eu precisei de um segundo para encontrar as palavras certas para rebatê-lo.
— Eu não cresci aqui — eu disse finalmente. — Eu sei como é lá fora.
— Bom, eu ainda tenho um buraco de bala na perna.
— Ah, por favor. Não é como se fosse a mesma coisa.
— Você precisa melhorar suas habilidades com sutura, a propósito.
— Você é mesmo um mal-agradecido idiota.


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